O pavão misterioso - José Camelo de Melo

O pavão misterioso - José Camelo de Melo















Eu vou contar uma história 
De um pavão misterioso 
Que levantou vôo na Grécia 
Com um rapaz corajoso 
Raptando uma condessa 
Filha de um conde orgulhoso.

O velho turco era dono 
Duma fábrica de tecidos 
Com largas propriedades 
Dinheiro e bens possuídos 
Deu de herança a seus filhos 
Porque eram bem unidos.


Um dia João Batista 
Pensou pela vaidade 
E disse a Evangelista: 
– Meu mano eu tenho vontade 
de visitar o estrangeiro 
se não te deixar saudade.


Respondeu Evangelista: 
– Vai que eu ficarei 
regendo os negócios 
como sempre eu trabalhei 
garanto que nossos bens 
com cuidado zelarei.


João Batista prometeu 
Com muito boa intenção 
De comprar um objeto 
De gosto de seu irmão 
Então tomou um paquete 
E seguiu para o Japão.

11 
João Batista entrou na Grécia 
Divertiu-se em passear 
Comprou passagem de bordo 
E quando ia embarcar 
Ouviu um grego dizer 
Acho bom se demorar.

13 
– Mora aqui nesta cidade 
um conde muito valente 
mais soberbo do que Nero 
pai de uma filha somente 
é a moça mais bonita 
que há no tempo presente

15 
– De ano em ano essa moça 
bota a cabeça de fora 
para o povo adorá-la 
no espaço de uma hora 
para ser vista outra vez 
tem um ano de demora.

17 
Os estrangeiros têm vindo 
Tomarem conhecimento 
Amanhã quando ela aparece 
No grande ajuntamento 
É proibido pedir-se 
A mão dela em casamento.

19 
Logo no segundo dia 
Creuza saiu na janela 
Os fotógrafos se vexaram 
Tirando o retrato dela 
Quando inteirou uma hora 
Desapareceu a donzela.

21 
O fotógrafo respondeu: 
– Lhe custa um conto de réis 
João Batista ainda disse: 
– Eu compro até por dez 
se o dinheiro não der 
empenharei os anéis.

23 
Então disse Evangelista: 
– Meu mano vá me contando 
se viste coisas bonitas 
onde andaste passeando 
o que me traz de presente 
vá logo entregando.


Residia na Turquia 
Um viúvo capitalista 
Pai de dois filhos solteiros 
O mais velho João Batista 
Então o filho mais novo 
Se chamava Evangelista.


Depois que o velho morreu 
Fizeram combinação 
Porque o tal João Batista 
Concordou com o seu irmão 
E foram negociar 
Na mais perfeita união.


– Olha que nossa riqueza 
se acha muito aumentada 
e dessa nossa fortuna 
ainda não gozei nada 
portanto convém qu'eu passe 
um ano em terra afastada.


– Quero te fazer um pedido: 
procure no estrangeiro 
um objeto bonito 
só para rapaz solteiro; 
traz para mim de presente 
embora custe dinheiro.

10 
João Batista no Japão 
Esteve seis meses somente 
Gozando daquele império 
Percorreu o Oriente 
Depois voltou para a Grécia 
Outro país diferente.

12 
João Batista interrogou: 
– Amigo fale a verdade 
por qual motivo o senhor 
manda eu ficar na cidade? 
Disse o grego: – Vai haver 
Uma grande novidade.

14 
– É a moça em que eu falo 
Filha do tal potentado 
O pai tem ela escondida 
Em um quarto de sobrado 
Chama-se Creuza e criou-se 
Sem nunca ter passeado.

16 
O conde não consentiu 
Outro homem educá-la 
Só ele como pai dela 
Teve o poder de ensiná-la 
E será morto o criado 
Que dela ouvir a fala.

18 
Então disse João Batista 
– Agora vou me demorar 
pra ver essa condessa 
estrela desse lugar 
quando eu chegar à Turquia 
tenho muito o que contar.

20 
João Batista viu depois 
Um retratista vendendo 
Alguns retratos de Creuza 
Vexou-se e foi dizendo: 
– Quanto quer pelo retrato 
porque comprá-lo pretendo.

22 
João Batista voltou 
Da Grécia para a Turquia 
E quando chegou em Meca 
Cidade em que residia 
Seu mano Evangelista 
Banqueteou o seu dia.

24 
Respondeu João Batista: 
– Para ti trouxe um retrato 
de uma condessa da Grécia 
moça que tem fino trato 
custou-me um conto de réis 
ainda achei muito barato.

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25 
Respondeu Evangelista 
Depois duma gargalhada: 
- Neste caso meu irmão 
pra mim não trouxe nada 
pois retrato de mulher 
é coisa bastante usada.
27 
João Batista retirou 
O retrato de uma mala 
Entregou ao rapaz 
Que estava de pé na sala 
Quando ele viu o retrato 
Quis falar tremeu a fala.

29 
Respondeu João Batista 
- Creuza é muito mais formosa 
do que o retrato dela 
em beleza é preciosa 
tem o corpo desenhado 
por uma mão milagrosa.

31 
Respondeu Evangelista 
- Pois meu irmão eu te digo 
vou sair do país 
não posso ficar contigo 
pois a moça do retrato 
deixou-me a vida em perigo.

33 
- Teu conselho não me serve 
estou impressionado 
rapaz sem moça bonita 
é um desaventurado 
se eu não me casar com Creuza 
findo meus dias enforcado.

35 
Deram o balanço no dinheiro 
Só três milhões encontraram 
Tocou dois a Evangelista 
Conforme se combinaram 
Com relação ao negócio 
Da firma se desligaram.

37 
Logo que chegou na Grécia 
Hospedou-se Evangelista 
Em um hotel dos mais pobres 
Negando assim sua pista 
Só para ninguém saber 
Que era um capitalista.

39 
Os hotéis já se achavam 
Repletos de passageiros 
Passeavam pelas praças 
Os grupos de cavalheiros 
Havia muito fidalgos 
Chegado dos estrangeiros.

41 
Quando Evangelista viu 
O brilho da boniteza 
Disse: - Vejo que meu mano 
Quis me falar com franqueza 
Pois esta gentil donzela 
É rainha de beleza.

43 
No outro dia saiu 
Passeando Evangelista 
Encontrou-se na cidade 
Com um moço jornalista 
Perguntou se não havia 
Naquela praça um artista.

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Evangelista entrou 
Na casa do engenheiro 
Falando em língua grega 
Negando ser estrangeiro 
Lhe propôs um bom negócio 
Lhe oferecendo dinheiro.

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Respondeu-lhe Edmundo 
- Na arte não tenho medo 
mas vejo que o amigo 
quer um negócio em segredo 
como precisa de mim 
conte-me lá o enredo.

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- Sei que tem muitos retratos 
mas como o que eu trouxe não 
vais agora examiná-lo 
entrego em tua mão 
quando vires a beleza 
mudará de opinião.

28 
Evangelista voltou 
Com o retrato na mão 
Tremendo quase assustado 
Perguntou ao seu irmão 
Se a moça do retrato 
Tinha aquela perfeição.

30 
João Batista perguntou 
Fazendo ar de riso: 
- Que é isso, meu irmão 
queres perder o juízo? 
Já vi que este retrato 
Vai te causar prejuízo.

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João Batista falou sério: 
- Precipício não convém 
de que te serve ir embora 
por este mundo além 
em procura de uma moça 
que não casa com ninguém.

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- Vamos partir a riqueza 
que tenho a necessidade 
dá balanço no dinheiro 
porque eu quero a metade 
o que não posso levar 
dou-te de boa vontade.

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Despediu-se Evangelista 
Abraçou o seu irmão 
Chorando um pelo outro 
Em triste separação 
Seguindo um para a Grécia 
Em uma embarcação.

38 
Ali passou oito meses 
Sem se dar a conhecer 
Sempre andando disfarçado 
Só para ninguém saber 
Até que chegou o dia 
Da donzela aparecer.

40 
As duas horas as tarde 
Creuza saiu à janela 
Mostrando a sua beleza 
Entre o conde e a mãe dela 
Todos tiraram o chapéu 
Em continência à donzela.

42 
Evangelista voltou 
Aonde estava hospedado 
Como não falou com a moça 
Estava contrariado 
Foi inventar uma idéia 
Que lhe desse resultado.

44 
Respondeu o jornalista: 
- Tem o doutor Edmundo 
na rua dos Operários 
é engenheiro profundo 
para inventar maquinismo 
é ele o maior do mundo.

46 
Assim disse Evangelista: 
- Meu engenheiro famoso 
primeiro vá me dizendo 
se não é homem medroso 
porque eu quero custar 
um negócio vantajoso

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- Eu amo a filha do conde 
a mais formosa mulher 
se o doutor inventar 
um aparelho qualquer 
que eu possa falar com ela 
pago o que o senhor quiser.

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49 
– Eu aceito o seu contrato 
mas preciso lhe avisar 
que eu vou trabalhar seis meses 
o senhor vai esperar 
é obra desconhecida 
que agora vou inventar.
51 
Enquanto Evangelista 
Impaciente esperava 
O engenheiro Edmundo 
Toda noite trabalhava 
Oculto em sua oficina 
E ninguém adivinhava.

53 
Movido a motor elétrico 
Depósito de gasolina 
Com locomoção macia 
Que não fazia buzina 
A obra mais importante 
Que fez em sua oficina.

55 
Quando Edmundo findou 
Disse a Evangelista: 
– Sua obra está perfeita 
ficou com bonita vista 
o senhor tem que saber 
que Edmundo é artista.

57 
Foram experimentar 
Se tinha jeito o pavão 
Abriram a lavanca e chave 
Encarcaram num botão 
O monstro girou suspenso 
Maneiro como balão.

59 
Então disse o engenheiro: 
– Já provei minha invenção 
fizemos a experiência 
tome conta do pavão 
agora o senhor me paga 
sem promover discussão.

61 
Edmundo ainda deu-lhe 
Mais uma serra azougada 
Que serrava caibro e ripa 
E não fazia zuada 
Tinha os dentes igual navalha 
De lâmina bem afiada.

63 
À meia-noite o pavão 
Do muro se levantou 
Com as lâmpadas apagadas 
Como uma flecha voou 
Bem no sobrado do conde 
Na cumeeira pousou.

65 
Chegou no quarto de Creuza 
Onde a donzela dormia 
Debaixo do cortinado 
Feito de seda amarela 
E ele para acordá-la 
Pôs a mão na testa dela.

67 
Então Creuza deu um grito: 
– Papai um desconhecido 
entrou aqui no meu quarto 
sujeito muito atrevido 
venha depressa papai 
pode ser algum bandido.

69 
De um lenço enigmático 
Que quando Creuza gritava 
Chamando o pai dela 
Então o moço passava 
Ele no nariz da moça 
Com isso ela desmaiava.

71 
Ajeitou os caibros e ripas 
E consertou o telhado 
E montando em seu pavão 
Voou bastante vexado 
Foi esconder o aparelho 
Aonde foi fabricado.

50 
– Quer o dinheiro adiantado? 
Eu pago neste momento 
– Não senhor, ainda é cedo 
quando terminar o invento 
é que eu digo o preço 
quanto custa o pagamento.

52 
O grande artista Edmundo 
Desenhou nova invenção 
Fazendo um aeroplano 
De pequena dimensão 
Fabricado de alumínio 
Com importante armação.

54 
Tinha cauda como leque 
As asas como pavão 
Pescoço, cabeça e bico 
Lavanca, chave e botão 
Voava igualmente ao vento 
Para qualquer direção.

56 
– Eu fiz o aeroplano 
da forma de um pavão 
que arma e se desarma 
comprimindo em um botão 
e carrega doze arroba 
três léguas acima do chão.

58 
O pavão de asas abertas 
Partiu com velocidade 
Coroando todo o espaço 
Muito acima da cidade 
Como era meia noite 
Voaram mesmo à vontade.

60 
Perguntou Evangelista: 
– Quanto custa o seu invento? 
– Dê me cem contos de réis 
acha caro o pagamento 
o rapaz lhe respondeu: 
Acho pouco dou duzentos.

62 
Então disse o jovem turco: 
– Muito obrigado fiquei 
do pavão e dos presentes 
para lutar me armei 
amanhã a meia-noite 
com Creuza conversarei.

64 
Evangelista em silêncio 
Cinco telhas arredou 
Um buraco de dois palmos 
Caibros e ripas serrou 
E pendurado numa corda 
Por ela escorregou.

66 
A donzela estremeceu 
Acordou no mesmo instante 
E viu um rapaz estranho 
De rosto muito elegante 
Que sorria para ela 
Com um olhar fascinante.

68 
O rapaz lhe disse: – Moça 
Entre nós não há perigo 
Estou pronto a defendê-la 
Como um verdadeiro amigo 
Venho é saber da senhora 
Se quer casar-se comigo.

70 
O jovem puxou o lenço 
Ao nariz da moça encostou 
Deu uma vertigem na moça 
De repente desmaiou 
E ele subiu na corda 
Chegando em cima tirou.

72 
O conde acordou aflito 
Quando ouviu essa zuada 
Entrou no quarto da filha 
Desembainhou a espada 
Encontrou-a sem sentido 
Dez minutos desmaiada.

#Q#
73 
Percorreu todos os cantos 
Com a espada na mão 
Berrando e soltando pragas 
Colérico como um leão 
Dizendo: – Aonde encontrá-lo 
Eu mato esse ladrão.
75 
Disse o conde: – Nesse caso 
Tu já estás a sonhar 
Moça de dezoito anos 
Já pensando em se casar 
Se aparecer casamento 
Eu saberei desmanchar.

77 
E Creuza estava deitada 
Dormindo o sono inocente 
Seus cabelos como um véu 
Que enfeitava puramente 
Como um anjo de terreal 
Que tem lábios sorridentes.

79 
A moça interrogou-o 
Disse: – Quem é o senhor 
Diz ele: – Sou estrangeiro 
Lhe consagrei grande amor 
Se não fores minha esposa 
A vida não tem valor.

81 
Como eu lhe tenho amizade 
Me arrisco fora de hora 
Moça não me negue o sim 
A quem tanto lhe adora! 
Creuza aí gritou: – Papai 
Venha ver o homem agora.

83 
Ouviu-se tocar a corneta 
E o brado da sentinela 
O conde se dirigiu 
Para o quarto da donzela 
Viu a filha desmaiada 
Não pode falar com ela.

85 
– Minha filha, eu já pensei 
em um plano bem sagaz 
passa essa banha amarela 
na cabeça desse audaz 
só assim descobriremos 
esse anjo ou satanás.

87 
Evangelista também 
Desarmou seu pavão 
A cauda, a capota, o bico 
Diminuiu a armação 
Escondeu o seu motor 
Em um pequeno caixão.

89 
Já era a terceira vez 
Que Evangelista entrava 
No quarto que a condessa 
À noite se agasalhava 
Pela força do amor 
O rapaz se arriscava.

91 
Evangelista sentou-se 
Pôs-se a conversar com ela 
Trocando o riso esperava 
A resposta da donzela 
Ela pôs-lhe a mão na testa 
Passou a banha amarela.

93 
E logo Evangelista 
Voando da cumeeira 
Foi esconder seu pavão 
Nas folhas de uma palmeira 
Disse: – Na quarta viagem 
Levo essa estrangeira.

95 
Disse o conde: – Minha filha 
Parece que estás doente? 
Sofreste algum acesso 
Porque teu olhar não mente 
O tal rapaz encantado 
Te apareceu certamente.
74 
Creuza disse: – Meu pai 
Pois eu vi neste momento 
Um jovem rico e elegante 
Me falando em casamento 
Não vi quando ele encantou-se 
Porque me deu um passamento.

76 
Evangelista voltou 
Às duas da madrugada 
Assentou seu pavão 
Sem que fizesse zuada 
Desceu pela mesma trilha 
Na corda dependurada.

78 
O rapaz muito sutil 
Foi pegando na mão dela 
Então a moça assustou-se 
Ele garantiu a ela 
Que não eram malfazejos: 
– Não tenha medo donzela.

80 
Mas Creuza achou impossível 
O moço entrar no sobrado 
Então perguntou a ele 
De que jeito tinha entrado 
E disse: – Vai me dizendo 
Se és vivo ou encantado.

82 
Ele passou-lhe o lenço 
Ela caiu sem sentido 
Então subiu na corda 
Por onde tinha descido 
Chegou em cima e disse: 
– O conde será vencido.

84 
Até que a moça tornou 
Disse o conde: – É um caso sério 
Sou um fidalgo tão rico 
Atentado em meu critério 
Mas nós vamos descobrir 
O autor do mistério.

86 
– Só sendo uma visão 
que entra neste sobrado 
só chega à meia-noite 
entra e sai sem ser notado 
se é gente desse mundo 
usa feitiço encantado.

88 
Depois de sessenta dias 
Alta noite em nevoeiro 
Evangelista chegou 
No seu pavão bem maneiro 
Desceu no quarto da moça 
A seu modo traiçoeiro.

90 
Com um pouco a moça acordou 
Foi logo dizendo assim: 
– Tu tens dito que me amas 
com um bem-querer sem fim 
se me amas com respeito 
te senta juntos de mim.

92 
Depois Creuza levantou-se 
Com vontade de gritar 
O rapaz tocou-lhe o lenço 
Sentiu ela desmaiar 
Deixou-a com uma síncope 
Tratou de se retirar.

94 
Creuza então passou o resto 
Da noite mal sossegada 
Acordou pela manhã 
Meditava e cismada 
Se o pai não perguntasse 
Ela não dizia nada.

96 
E Creuza disse: – Papai 
Eu cumpri o seu mandado 
O rapaz apareceu-me 
Mas achei-o delicado 
Passei-lhe a banha amarela 
E ele saiu marcado.

#Q#
97 
O conde disse aos soldados 
Que a cidade patrulhassem 
Tomassem os chapéus de 
Quem nas ruas encontrassem 
Um de cabelo amarelo 
Ou rico ou pobre pegassem.
99 
Os soldados lhe disseram: 
– Cidadão não estremeça 
está preso a ordem do conde 
e é bom que não se cresça 
vai a presença do conde 
se é homem não esmoreça.

101 
Evangelista respondeu: 
– Também me faça um favor 
enquanto vou me vestir 
minha roupa superior 
na classe de homem rico 
ninguém pisa meu valor.

103 
Seguiu logo Evangelista 
Conversando com o guarda 
Até que se aproximaram 
Duma palmeira copada 
Então disse Evangelista: 
– Minha roupa está trepada.

105 
Evangelista subiu 
Pôs um dedo no botão 
Seu monstro de alumínio 
Ergueu logo a armação 
Dali foi se levantando 
Seguiu voando o pavão.

107 
Então mandaram subir 
Um soldado de coragem 
Disseram: – Pegue na perna 
Arraste com a folhagem 
Está passando na hora 
De voltarmos da viagem.

109 
Voltaram e disseram ao conde 
Que o rapaz tinham encontrado 
Mas no olho de uma palmeira 
O moço tinha voado 
Disso o conde: – Pois é o cão 
Que com Creuza tem falado.

111 
Disse Creuza: – Ora papai 
Me prive da liberdade 
Não consente que eu goze 
A distração da cidade 
Vivo como criminosa 
Sem gozar a mocidade.

113 
– O rapaz que me amou 
só queria vê-lo agora 
para cair nos seus pés 
como uma infeliz que chora 
embora que eu depois 
morresse na mesma hora.

115 
Às quatro da madrugada 
Evangelista desceu 
Creuza estava acordada 
Nunca mais adormeceu 
A moça estava chorando 
O rapaz lhe apareceu.

117 
O rapaz disse: – Menina 
A mim não fizeste mal 
Toda a moça é inocente 
Tem seu papel virginal 
Cerimônia de donzela 
É uma coisa natural.

119 
– Se o senhor é homem sério 
e comigo quer casar 
pois tome conta de mim 
aqui não quero ficar 
se eu falar em casamento 
meu pai manda me matar.

98 
Evangelista trajou-se 
Com roupa de alugado 
Encontrou-se com a patrulha 
O seu chapéu foi tirado 
Viram o cabelo amarelo 
Gritaram: – Esteja intimado!

100 
– Você hoje vai provar 
por sua vida responde 
como é que tem falado 
com a filha do nosso conde 
quando ela lhe procura 
onde é que se esconde.

102 
Disseram: – Pode mudar 
Sua roupa de nobreza 
A moça bem que dizia 
Que o rapaz tinha riqueza 
Vamos ganhar umas luvas 
E o conde uma surpresa.

104 
E os soldados olharam 
Em cima tinha um caixão 
Mandaram ele subir 
E ficaram de prontidão 
Pegaram a conversar 
Prestando pouca atenção.

106 
E os soldados gritaram: 
– Amigo, o senhor se desça 
deixe de tanta demora 
é bom que não aborreça 
senão com pouco uma bala 
visita sua cabeça.

108 
Quando o soldado subiu 
Gritou: – Perdemos a ação 
Fugiu o moço voando 
De longe vejo um pavão 
Zombou de nossa patrulha 
Aquele moço é o cão.

110 
Creuza sabendo da história 
Chorava de arrependida 
Por ter marcado o rapaz 
Com banha desconhecida 
Disse: – Nunca mais terei 
Sossego na minha vida.

112 
– Aqui não tenho direito 
de falar com um criado 
um rapaz para me ver 
precisa ser encantado 
mas talvez ainda eu fuja 
deste maldito sobrado.

114 
– Eu sei que para ele 
não mereço confiança 
quando ele vinha aqui 
ainda eu tinha esperança 
de sair desta prisão 
onde estou desde de criança.

116 
O jovem cumprimentou-a 
Deu-lhe um aperto de mão 
A condessa ajoelhou-se 
Para pedir-lhe perdão 
Dizendo: – Meu pai mandou 
Eu fazer-te uma traição.

118 
– Todo o seu sonho dourado 
é fazer-te minha senhora 
se quiseres casar comigo 
te arrumas e vamos embora 
senão o dia amanhece 
e se perde a nossa hora.

120 
– Que importa que ele mande 
tropas e navios pelos mares 
minha viagem é aérea 
meu cavalo anda nos ares 
nós vamos sair daqui 
casar em outros lugares.

#Q#
121 
Creuza estava empacotando 
O vestido mais elegante 
O conde entrou no quarto 
E dando um berro vibrante 
Gritando: – Filha maldita 
Vais morrer com o seu amante.

123 
Ouviu-se o baque do conde 
Porque rolou desmaiado 
A última cena do lenço 
Deixou-o magnetizado 
Disse o moço: – Tem dez minutos 
Para sairmos do sobrado.

125 
Com pouco o conde acordou 
Viu a corda pendurada 
Na coberta do sobrado 
Distinguiu uma zuada 
E as lâmpadas do aparelho 
Mostrando luz variada.

127 
Os soldados da patrulha 
Estavam de prontidão 
Um disse: – Vem ver fulano 
Aí vai passando um pavão 
O monstro fez uma curva 
Para tomar direção.

129 
O conde olhou para a corda 
E o buraco do telhado 
Como tinha sido vencido 
Pelo rapaz atilado 
Adoeceu só de raiva 
Morreu por não ser vingado.

131 
Em casa de João Batista 
Deu-se grande ajuntamento 
Dando vivas ao noivado 
Parabéns ao casamento 
À noite teve retreta 
Com visita e cumprimento.

133 
Dizia o telegrama: 
"Creuza vem com o teu marido 
receber a tua herança 
o conde é falecido 
tua mãe deseja ver 
o genro desconhecido."

135 
De manhã quando os noivos 
Acabaram de almoçar 
E Creuza em traje de noiva 
Pronta para viajar 
De palma, véu e capela 
Pois só vieram casar.

137 
Os noivos tomaram assento 
No pavão de alumínio 
E o monstro se levantou-se 
Foi ficando pequenino 
Continuou o seu vôo 
Ao rumo do seu destino.

139 
Na tarde do mesmo dia 
Que o pavão foi chegado 
Em casa de Edmundo 
Ficou o noivo hospedado 
Seu amigo de confiança 
Que foi bem recompensado.

141 
Disse a velha: – Minha filha 
Saíste do cativeiro 
Fizeste bem em fugir 
E casar no estrangeiro 
Tomem conta da herança 
Meu genro é meu herdeiro.

122 
O conde rangendo os dentes 
Avançou com passo extenso 
Deu um pontapé na filha 
Dizendo: – Eu sou quem venço 
Logo no nariz do conde 
O rapaz passou o lenço.

124 
Creuza disse: – Eu estou pronta 
Já podemos ir embora 
E subiram pela corda 
Até que sairam fora 
Se aproximava a alvorada 
Pela cortina da aurora.

126 
E a gaita do pavão 
Tocando uma rouca voz 
O monstro de olho de fogo 
Projetando os seus faróis 
O conde mandando pragas 
Disse a moça: – É contra nós.

128 
Então dizia um soldado 
– Orgulho é uma ilusão 
um pai governa uma filha 
mas não manda no coração 
pois agora a condessinha 
vai fugindo no pavão.

130 
Logo que Evangelista 
Foi chegando na Turquia 
Com a condessa da Grécia 
Fidalga da monarquia 
Em casa do seu irmão 
Casaram no mesmo dia.

132 
Enquanto Evangelista 
Gozava imensa alegria 
Chegava um telegrama 
Da Grécia para Turquia 
Chamando a condessa urgente 
Pelo motivo que havia.

134 
A condessa estava lendo 
Com o telegrama na mão 
Entregou a Evangielista 
Que mostrou ao seu irmão 
Dizendo: – Vamos voltar 
Por uma justa razão.

136 
Diziam os convidados: 
– A condessa é tão mocinha 
e vestida de noiva 
torna-se mais bonitinha 
está com um buquê de flor 
séria como uma rainha.

138 
Na cidade de Atenas 
Estava a população 
Esperando pela volta 
Do aeroplano pavão 
Ou o cavalo do espaço 
Que imita um avião.

140 
E também a mãe de Creuza 
Já esperava vexada 
A filha mais tarde entrou 
Muito bem acompanhada 
De braço com o seu noivo 
Disse: – Mamãe estou casada.


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