A Cidade das Máquinas - Peça Teatral

A Cidade das Máquinas - Peça Teatral

Pôster da peça usado para sua apresentação no CEU Cidade Dutra. (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução).



      E se, na Cidade das Máquinas, você encontrasse um ser humano?

      Com o texto de Pedro Tudech e direção de Ronny D'Oliveira, "A Cidade das Máquinas" é uma peça que remete os tempos de John Lennon. Com um humor irreverente e carregado de críticas ácidas à sociedade, ela nos apresenta um universo cruel onde o sentimento humano passou a ser algo sem importância — o dinheiro é a única razão de viver.

Atores Gilson Basílio e Ronny D'Oliveira em cena — peça já começa com poema que dá nome ao espetáculo.

      A partir da visão de um jovem poeta, somos tragados a esse universo sem piedade alguma, quase sem cerimônia — se não fosse o poema, que aliás dá o nome a peça, recitado logo nos primeiros minutos de uma forma que nos tira o fôlego e faz sentir toda a dor na alma do protagonista. Ao redor do poeta, inserido em seu mundo do qual violentamente não quer fazer parte, temos seu amigo pintor (interpretado belamente por um dos melhores — e mais bem humorados — atores que já vi), que por muito tempo insiste que "o Poeta" deixe suas paixões de lado, pois, segundo o seu jeito de encarar a realidade, "o mundo não é assim, ninguém compra poesia. Arrume um emprego, precisamos pagar o aluguel atrasado!". Mas que, com o tempo, até mesmo ele acaba percebendo o quão "desreguladas" estão as peças desse mundo.
De tempos em tempos, a história principal é pausada para exibir esquetes com diferentes personagens.

      Assim que nos é apresentado esse universo, não há mais como esquecermos dele. Assim que nos deparamos com as atrocidades das quais a grande maioria da população mal dá importância — isso jogado na sua cara durante um coro de risadas! —, você sente sua garganta engolindo em seco. Então sabe o quanto esse mundo cruel pode ser ocultado por coisas tão triviais, mas que parecem chamar muito mais a atenção da sociedade, do que sentimentos... amores... todas essas coisas "que não importam mais".

      Em vários momentos, o palco escurece, a história principal é pausada e somos apresentados a novos e diferentes personagens. Os chamados "alívios cômicos", comumente usados para distrair os espectadores, mas que nesta peça também servem de crítica social. A expectativa para a chegada dessas esquetes é grande, já que, enquanto a história principal é carregada de tensão, não há como não rir durante as esquetes. Por todo o tempo, a história principal nos enche de preocupação quanto ao rumo que o Poeta e seu amigo pintor vão tomar — se vão conseguir dinheiro, se o livro do poeta será publicado, enfim —, além das críticas que nos fazem refletir para onde nossa sociedade está se encaminhando, o que nos enche de culpa e, até mesmo, certa dor no peito. Talvez por isso as esquetes tenham sido uma alternativa que o autor achou importante para uma melhor fluidez da peça.

      O que nos faz pensar, de onde vem essas personagens? Mas não espere descobrir a resposta disso aqui... você terá de assistir a peça para saber (risos).
Dentre as críticas, o tema religião também é citado.

     Outros fatores que impressionam, são a sonoplastia e iluminação. Por várias vezes, temos como trilha sonora músicas de John Lennon — àquele quem a peça faz referência —, sons de fundo que realmente nos fazem acreditar que estamos em determinados ambientes e jogos de luz e cores, tudo isso contribuindo para que o espectador se sinta verdadeiramente inserido na época em que o astro ainda era vivo, mesmo aqueles que mal o conheceram.

      Infelizmente, as decepções desse mundo não são poucas, e elas nos fazem questionar o valor que temos e a importância que damos às coisas e às pessoas que nos cercam. Realmente se trata de uma peça que vale a pena ser assistida e compartilhada não só por um pequeno grupo de estudantes numa excursão em um dia chuvoso... mas sim, por todos.
Ao fim da peça, toda a plateia ficou de pé para aplaudir e prestigiar os atores, a sonoplastia e os organizadores.

      A minha maior admiração por um ator é quando ele consegue se passar por várias pessoas, sem que você veja seu verdadeiro "eu" por baixo da personagem. Como Johnny Depp, por exemplo.

      E esses dois atores, durante toda a apresentação, se mostraram surpreendentemente incríveis fazendo não só um, mas vários e vários papéis dentro da mesma peça, abordando temas tão pesados — ora de um jeito divertido, ora de um jeito trágico. Acho que a definição do que é teatro está toda aqui: a transformação da visão de quem a vê, através da arte — por que, sim, essa é uma peça transformadora. Essa arte tão poderosa, que me seguiu o caminho de casa inteiro.

      Parabéns ao elenco e a todos os envolvidos do Grupo Teatral Bambarce pela iniciativa de espalhar esse desejo tão ardente de paz não somente por teatros, mas também pelas escolas! A vocês, a minha mais sincera admiração e vontade de poder assisti-los mais vezes.

 Posso dizer que conheci dois incríveis atores nesse dia — após o encerramento, ambos se despediram da plateia e tiraram fotos com quem quisesse subir ao palco. Da esquerda para a direita: Gilson Basílio, eu, Ronny D'Oliveira e Stephanie Daiane, minha amiga que também assistiu a peça.

Agradeço especialmente a Stephanie Daiane (foto acima), por ter tirado todas essas fotos durante e após o espetáculo.

Procurando pela internet, fiquei impressionado ao descobrir vídeos da peça em cartaz desde seis anos atrás. Também descobri que, de lá para cá, somente o personagem do pintor teve seu ator fixo, antes da chegada de Gilson Basílio (personagem do pintor já foi interpretado por Lucas Limberti, Fernando Fersa, e já contou com a direção de Sergio Bambace).


Vídeos relacionados tirados do YouTube:







2 comentários :

  1. Prezado Thiago, aqui quem escreve é o produtor desse espetáculo. Fiquei feliz em ler suas palavras e confirmei através dela que estamos a caminhar pela estrada certa. Obrigado pela bela crítica lançada e parabéns pelo olhar sensível que pôs sobre o trabalho. Abraço, Márcio Levi

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    1. Oi, Márcio Levi! É um prazer te conhecer e saber que gostou da resenha que fiz. Mais do que isso, fico feliz por ter tido a oportunidade de assistir a peça de vocês. Obrigado mesmo, vocês são incríveis. Um abraço!

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