RESENHA - Uma História de Solidão

RESENHA - Uma História de Solidão


"Que mundo é este em que vivemos, quanto mal causamos às crianças."


John Boyne mais uma vez consegue nos surpreender com suas histórias fascinantes. Quem já leu O Menino do Pijama Listrado sabe que Boyne consegue tratar de assuntos delicados de uma forma que faz o leitor explorar uma realidade onde muitas vezes é desconhecida ou temem conhecer. Desde sua primeira obra, O Ladrão do Tempo, Boyne demonstrara não ter receio em abordar temas como pedofilia, homossexualismo, primeira e segunda guerra mundial, entre outros. E em Uma História de Solidão também não é diferente.




SINOPSE
Odran e Tom são amigos de longa data: se conheceram no seminário e foram ordenados padres na mesma época. Em uma Irlanda católica, os dois tomam rumos diferentes, mas se reencontram adultos, quando não têm mais nada em comum, exceto a profissão e as lembranças que permaneceram com o tempo.
Ao narrar a história desses dois personagens, John Boyne traça o panorama de uma sociedade sufocada pelos ditames do catolicismo e do regime doutrinário das escolas, desvelando com muita habilidade o segredo mais bem guardado da igreja.

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Uma das coisas que mais amo nesse livro é o título e a capa. Todas as vezes que vejo essa capa eu me lembro do exato momento em que li um trecho do livro que representa ela e eu me pergunto até onde as pessoas fracassadas que levam uma vida de projeção errada de si, podem ir?
A história, cronologicamente falando, começa quando na família de Odran acontece algo que abala a sua vida e a vida de sua mãe. Após essa tragédia, sua mãe se torna uma católica fervente e após dizer que teve uma 'visão' e nela, Odran seria um padre, é a partir daí que Odran passa à viver uma vida que nunca imaginou, e uma vida regida a escolhas dos outros. Quando adolescente, Odran conhece Tom e se revela como seu melhor amigo.
Odran apssa a crescer pessoalmente e espiritualmente, à medida que tenta ignorar fenômenos em sua vida que não encontra uma solução. Um desses fenômenos é o sumiço repentino de seu sobrinho mais velho, e outro é o sumiço estranho de seu melhor amigo. Mas Odran continua vivendo sua vida sem querer enxergar a verdade que sempre esteve na sua frente, e esse é o mistério do livro. Ele sempre soube o que seu amigo fazia, mas ignorava ao ponto de ele mesmo não enxergar a verdade.
Com o decorrer da história, vamos entendendo que Odran é uma pessoa egoísta, e que esse egoísmo prejudicou várias pessoas que poderiam, ou melhor, várias crianças que foram abusadas, até mesmo crianças de seu conhecimento.


John Boyne é um autor que consegue construir histórias que podem perpetuar em nossas mentes, e uma das cenas que mais me fez conhecer quem Odran era, e que fez eu ficar espantado com a mente de Boyne, é quando o sobrinho mais novo do Odran implora para ir embora com ele, mas ele simplesmente ignora e faz parecer que tudo é normal.
Outra cena que me deixou triste, é a cena em que o pai de Odran o chama para ir à praia, essa cena é fantástica em seu todo.
Este é um livro bem estilo John Boyne, um livro com tempos diferentes, hora é o passado distante, hora é o presente, hora é um passado próximo, e por aí vai. Confesso que isso me estressou um pouco, mesmo tendo lido outros livros do autor com o mesmo estilo. Mas esse estresse se deu ao fato de em determinado capítulo o fim me deixar desesperado para saber o que ia acontecer, mas só fosse ser revelado capítulos depois.

Aqui John Boyne aborda um tema polêmico e delicado, a pedofilia na igreja católica. Como não sou católico e não procurei averiguar as informações, não sei até que ponto é verdade ou não, mas nas últimas páginas e nos noticiários, vimos que se tem mais verdades do que mentiras ou histórias. Em toda a história, John descreve uma Irlanda extremamente católica, em que a igreja católica ainda tinha um poder muito grande mediante a sociedade e o governo. Eu amei a degradação que John fez e logo no começo nós temos algumas cenas em que as pessoas entregam comidas e oferecem ajuda e dinheiro aos padres, e depois de anos e polêmicas, temos cenas em que as mães trazem seus filhos meninos para mais perto de si demonstrando medo dos padres que passam a ser desprezados pela grande massa da sociedade.


Temos nesse livro histórias em que meninos eram abusados sexualmente pelos padres. Histórias em que mães levavam seus filhos rebeldes para serem educados pelos padres e lá eles eram aliciadas e muitas das vezes estuprados, isso quando não persuadidos à entenderem que isso era algo correto ou castigo pelos seus feitos. Claro que não estou generalizando, na história existem muitos padres que nunca cometeram tais atos. Muitos dos crimes foram cometidos em épocas em que o governo não sabia se declarava relação sexual com crianças um crime, e isso é abordado no livro em uma cena em que a mãe de um menino descobre e denúncia o padre, mas a polícia diz que não pode o prender, pois não é declarado como crime. Mas com o passar dos anos, após o suicídio de muitas pessoas que foram abusadas e do crescimento 'mental' da sociedade e a declaração do ato como crime, muitos padres foram denunciados e presos, mas infelizmente muitos não foram, pois disseram ter praticado tal feito em uma época em que não era crime.
E é esse pensamento que John Boyne nos proporciona: "É correto fazer o que não é dito como incorreto fazer? O mal que causamos quando temos uma 'necessidade natural' satisfeita em uma criança, que pode ou não permitir, pode ser realmente chamado de mal ou é somente porque a grande massa da sociedade vê como sendo algo proibido? - Esse livro nos responde com as mortes suicidas, a mudança de comportamento e o sofrimento de muitas crianças e adultos que passaram por isso.


Uma História de Solidão é um livro repleto de emoções que nos faz explorar um mundo de dores e mortes por um ato


Por enquanto é só galera, até mais!
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Título: Uma História de Solidão
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas:412

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