Os Meninos que Enganavam Nazistas - RESENHA

Os Meninos que Enganavam Nazistas - RESENHA


"E de repente, eis que a guerra deliberada, feita por adultos de gravatas e medalhas, acaba por jogar uma criança, eu, a coronhadas, num quarto fechado, me privando da liberdade, a mim, que não tinha feito nada, que não conhecia nenhum alemão..." - JOSEPH JOFFO


Talvez as coisas relatadas neste livro seja um absurdo e irreal para nós que vivemos um tempo de aparente paz e tranquilidade, onde nossas crianças podem ser quem são em qualquer lugar. Mas para os irmãos Joffo's, ou melhor, para a família Joffo, ou ainda melhor, para todos os judeus do século passado, as coisas não eram assim. Você não podia ser quem quisesse ser e poderia ser morto por isso. Você talvez possa pensar que essa é mais uma história da 2ª guerra mundial, e realmente é! Mas para mim, ainda existem choros e vozes de crianças, adultos e idosos que ainda ecoam até hoje. E sempre se tem histórias para serem ouvidas, seja ela com um final feliz ou não, de superação ou derrota, a 2ª guerra mundial teve as suas.

Ambientado na 2ª guerra mundial, Os Meninos que Enganavam Nazistas, conta uma história real vivida pelos irmãos Joffo's. Em uma França ocupada pelos nazistas e uma guerra fria entre judeus, franceses e alemãos, era assim a vida dos dois. A história tem como ponto principal a fuga de Joseph e Maurice Joffo, que após rumores de que o lugar onde estavam seria invadido pelos alemões, seus pais tem que fazer uma escolha muito dificil, mandar os dois fugirem sozinhos! Eles dão aos garotos algum dinheiro e um mapa com coordenadas para conseguirem chegar à França Livre. Você hoje pode pensar que essa foi uma atitude errada dos pais, mas durante a história, você verá que o lema da mãe deles era eficaz: 'Melhor pegar um só, do que o grupo todo'. A época deles é bem diferente da de hoje. Os nazistas obrigavam os pais à tomarem atitudes como essas, para simplesmente não verem os filhos sendo fuzilados ou gritarem de dor ao vê-los sendo banhados com ácidos, e ou coisas piores como estupros e torturas. Naquela época, não havia liberdade de escolhas, ou proteção do governo. Era cada um por si, mesmo tendo 10 ou 8 anos, era viver ou morrer e a mãe deles decidiu apostar na vida. Para se ter uma noção, após serem capturados por alguns S.S, eles dizem ao irmão mais velho, de 12 anos, que ele tem 48 horas para ir até a cidade e conseguir provas de que não eram judeus, caso contrário iriam cortar o irmão mais novo, de 10 anos em pedaços na frente dele. Se hoje uma criança de 12 anos mal consegue pegar um ônibus sozinha, naquela época elas eram obrigadas à ir de ponta à ponta de um país sozinhas, e no caso dos meninos, nunca mostrarem seu pênis, para não verem que eram circuincidados, e serem mais fortes do que a fome e o frio.

Este é um livro relativamente pequeno, contendo pouco mais de 300 páginas. Como o autor diz, é um livro com base nas suas memórias, e por ser relatado pelo irmão mais novo, que na época tinha 10 anos, algumas das lembranças podem conter distorções do que realmente aconteceu. E várias nomes foram trocados para manter a identidades das reais pessoas e até mesmo no final ele decide ocultar o nome de uma cidade, à chamando apenas de R. Foram mais de 20 milhões de cópias vendidas em 22 países. A versão que tenho, é a que você está vendo ao lado, nela temos no final, uma conversa com o autor, feita em 1992. Eu particularmente adorei essa conversa, ele revelou muitas coisas e à cada leitura, eu pesquisava na internet sobre o que ele estava falando, das pessoas e cidades. Confesso que gostei mais deste título do que o título original, pois tem mais a ver com a história. Um dos pontos que mais me marcou em toda a história, foi quando eles foram capturados pela última vez. Nesse momento, eu como leitor, me cansei junto ao Joseph. Após 1 ano e meio fugindo de um lugar para o outro, passando fome e frio, obrigado à trabalhar quase como escravo, ter passado por uma enfermidade, ele finalmente cansou. Pediu ao irmão que fugisse sem ele, pois seus pés estavam machucados e  sua infância totalmente destruída, por uma guerra que não era dele.

Esta é a capa e o título original, que podemos traduzir para Um Saco de Bolas, algo que remote ao um ocorrido bem no início do livro. Joseph era obrigado à fugir em todos os momentos, e desde que nasceu era obrigado à ser indiferente e por isso acabou não sabendo ao certo o que era ser Judeu. Em uma parte do livro ele pergunta: Mas afinal, que droga é ser judeu? No final do livro, ele responde uma pergunta feita por alguém que remete justamente isso: Você se acha um Judeu? - Joseph responde com sabedoria e sem culpa. Mesmo que aos 10 anos sendo obrigado à mostrar o pênis às pessoas e mentir dizendo que foi feita uma cirurgia, mesmo levando um tapa na cara do pai que o pediu para sempre mentir dizendo que não era judeu, mesmo sendo ameaçado de morte e tortura para dizer que era Judeu, ele responde à todos que sim, ele sempre foi um judeu, mas na sua infância para que continuasse vivo, era obrigado à dizer que não e viver essa mentira. Em uma parte ele diz algo de um notŕoio rabino: Se um judeu, em um momento de vida e morte, puder salvar sua vida em uma falsa negação de sua nacionalidade, a faça, minta e viva. - E ele acrescenta à resposta: Melhor um marrano vivo, do que um judeu morto. (Marrano é um judeu que renuncia sua religião para continuar vivo).

Até a data de Outubro de 2017, Joseph Joffo ainda continua vivo e deixou para a humanindade lindas histórias de suas reais aventuras. Após todo o holocasto, por volta de seus 12 anos, a França realmente ficou liberta dos nazistas com a queda de Pétain. Joseph se tornou cabeleireiro continuando assim a tradição da família e mais tarde se tornou ator e escritor também. Este livro foi escrito pelo próprio, mas também existem outros livros de autoria, mas infelizmente não traduzidos para o Brasil.




Em 1975 foi feita uma versão cinematrográfica do livro, dirigida por Jacques Doillon e estrelado por Richard Constantino (Joseph) e Paul-Eric Shulmann (Maurice). (Irmãos da esquerda para direita). Na conversa com o leitor, Joseph Joffo diz não gostar muito dessa adaptação, por trocarem diversos aspectos de sua obra.


E em 2017 foi lançado nos cinemas uma segunda adaptação com diferenças bastantes grandes em relação à primeira adaptação. Dirigida por Christian Duguay e estrelado por Dorian Le Chech (Joseph) e por Batyste Fleurial (Maurice). (Da esquerda para a direita respectivamente). Existem duas coisas interessante em relação às duas adaptações, o cinema em 1975 era mais livre, e em duas cenas que os meninos precisam mostrar o pênis, é realmente mostrado ma gravação, para a época isso não era considerado crime. Porém, na versão de 2017 temos uma cena em que as crianças estão fumando num carro. Na época, era comum crianças fumarem, mas como a adaptação foi gravada em pleno 2017, em alguns países isso é proibido, mesmo não sendo cigarro de verdade. Na segunda adaptação, teve algo que me desagradou, o ator escolhido para viver Maurice Joffo, tem nada mais e nada menos que 17 anos! E foi escolhido para representar um pré adolescente de 12 anos. Ao assistir, fica bem claro que ele não tem 12 anos. Já o ator do Joseph, tem 12 anos e representa 10.



Esta é uma história emocionante e inspiradora para qualquer um. Mesmo sendo retrada 3 vezes de maneiras diferentes, a história e a base é a mesma. Recomendo!

Por enquanto é só galera, até mais!
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Título: Os Meninos que Enganavam Nazistas
Autor: Joseph Joffo
Editora: Vestígio
Ano: 2017
Ano da edição original: 1973
Páginas: 320

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