Carlos Dias Fernandes e a poesia Naturalista

(Carlos Dias Fernandes. By: Thalia Emilly)


Alguns acreditam que o Naturalismo não teve aqui no Brasil grande presença em poemas e cabe mais interesse apenas em romances, porém posso afirmar, como pequeno pesquisador, que a poesia naturalista brasileira existe e que o autor Paraibano Carlos Dias Fernandes foi um dos maiores poetas deste período literário.

Pois, como conhecido de "radicalização do Realismo", o naturalismo apresenta o Homem como produto do meio, raça e classe social. Passando por tudo e indo mais além, Fernandes mostra o humano como um simples que veio a terra (isto é: Frágil e incapaz de fugir da morte). Assim sendo, seu poema intitulado: Tedium Teniae, disponivel em seu livro Solaus, representa a realidade de que o ser humano será devorado por vermes. "[...] Eu, em plena eclosão da vital energia,/ devorado em meu ser por helmynthos fecaes [...]". E mais ainda, perante uma boa leitura deste formidável soneto; podemos observar uma grande musicalidade (coisa presente em todos poemas do escritor) o que lembra também o Simbolismo. Com isso, podemos definir Carlos Dias como um "Naturalista-Simbolista?"... Talvez! O que sabemos é que era um intelectual bravo.  


"Um tedio verde e uma sinistra hypocondria
Minavam de amargura os meus dias mortaes.
Pessimismo ou Amor? Arte ou Philosophia?
— Era uma Tenia solitaria e nada mais.

E eu nem siquer de tal cousa me apercebia.
Ó apparencias vãs, como nos enganaes!
Eu, em plena eclosão de vital energia,
Devorado em meu ser por helmynthos fecaes!…

Quem tal dissera, assim vendo-me sobranceiro,
Farfalhante e feliz como um rijo pinheiro,
Filho da solidão, principe vegetal?!…

Ah! Mas também a vós, árvores, vos devora
O xilophago roaz, que se gera e que mora
No caule, de onde brota o cheiroso copal."
Em: Solaus. Dias, Fernandes.

O autor escreveu grandes poemas e um que representa de maneira completa a origem da vida e do planeta — Com elementos científicos (lembrando muito bem o contexto do Naturalismo) — É o 'Natureza' encontrado em sua obra Canção de Vesta.  

"Era um globo em fusão, na época do Nada,
A estrella fixa ou nebulosa condensada.
Que mais tarde se fez um globo d'agua enorme.
Brilhando á luz do sol. Toda a vida era informe,
Dynamisada, esparsa, instável, confundida
Na hydrica esphera mysteriosa e indefinida,
A bailar, a bailar, entre mundos ignotos.
Numa certa manhã d'esses tempos remotos,
Marcando para a terra o seu primeiro dia.
Uma ogiva irrompeu d'entre a monotonia
Das aguas. Eras tu, patriarcha dos montes;
Que vieste crear nos fuscos horisontes
D'esse mundo infantil a primeira paysagem.
Por diadema tiveste a fecunda bafagem
Do ether fino e subtil, que os espaços enchia.
A cada novo sol, o teu vulto crescia
Pois que a agua, ascendendo em nuvens pelo espaço,
Te deixava emergir do húmido regaço,
Porque fosses também o núcleo d'outras vidas.
Dispertaram então seivas adormecidas
Na tua compleição de útero maternal.
E milennios depois, o manto vegetal
Vestia-te a nudez, santa rocha primeva,
Filha d'agua e da luz, pulchra e fecunda Eva
Das várzeas, das rechans, dos prados e collinas,
Onde vieram medrar as mescladas boninas,
As primeiras cecéns e os cardos amarellos;
Fetos descommunaes, horrendos cogumellos;
Euphorbias toxicas, bromelias lanceoladas,
Largas, phenomenaes lianas, enroscadas
Como serpentes vegetaes em grossos troncos,
Bojudos baobás; scismativos e broncos
Pinheiros espectraes, —fantasmas da floresta —
E o cerrado juncal, que os pântanos infesta;
Toda a virente e singular polymorphia
Das arvores irmãs, na latente porfia
De deglotir a luz e de beber o ar.
Tudo irrompeu de ti, rocha filha do mar;
Mãe de todas as mães e princeza das fragas,
Hybrida concreção da salsugem das vagas.
Que, pela immensidão do teu esforço heróico,
Foste o marco final do período azoico;
Altar das ondas, saxeo berço inicial

E prímordio padrão da vida universal. [...]"

E o Darwinismo, uma das teorias mais aceitas pela Ciência, que demonstra que o ser mais forte se adapta e sobrevive ao ambiente, é também percebido em alguns versos do Poeta. Exemplo principal é em outras partes do mesmo poema mostrado acima. Pois assim, aqui o escritor coloca um primata em grande confronto com outros animais; E para escapar da situação teve que se defender com força bruta.

[...] — Luctar? — Seria em vão. Fortíssimos de mais
Eram para o vencer todos os animaes.
— Como buscar a vida entre tão cruas feras?
— Como escapar á vigilância das panteras.
Saltando pelo ar, com dous filhos ás costas? —
Eram perguntas que ficavam sem respostas
Na espessura mental, no cérebro ainda opaco,
Na brumosa razão d'esse afflicto macaco.
Sendo uma certa vez, de súbito apanhado
Numa fructeira, a sós, por um grande veado,
Que por simples maldade apenas o investiu,
Elle, por se salvar, num ramo se subiu,
E por fatalidade eis que se parte o ramo.
Viu-se pois obrigado a fazer frente ao gamo,
Com o mesmo pau vibrando um golpe tão certeiro,
Que se abateu por terra o sanhudo galheiro.

Nasceste assim, clava dos séculos obscuros.
Que havias de ajudar os guerreiros futuros
Nessa renhida e sacrosanta defensão
Do pátrio amor e da legitima razão.
Clava antiga, bordão dos nómades primeiros;
Cajado dos peões ; thyrso dos pegureiros;
Fino chuço mortal dos bárbaros de outr’ora;
Haste dos pavilhões ; lança conquistadora
Dos persas, dos hebreus; remo audaz dos phenicios;
Báculo —ramo em flor dos sagrados officios
— Emblema imperial— sceptro augusto dos reis —
Idênticos irmãos, todos vós descendeis
Do galho defensor, que um medroso primata,

Certa manhã, colheu, num angulo da matta [...]


E ainda, leitor, uma das coisas que mais vale observar é que o brilhante Carlos Dias também relatou em versos a vida no campo, o ser humano com seus primeiros poderes ao redor do mundo, falsidade, armas e questionamentos filosóficos.

"[...] Findaram para sempre os tormentos d'outr'ora-
A terra toda, o mar, a luz, a fauna, a flora
Constitue finalmente a posse da Razão.
Eis a familia, a tribu, a cidade, a nação.
Como era pobre e tosca a primitiva aldeia,
A habitação lacustre, acaçapada e feia.
Nos pântanos, erguida em fornidos varaes;
O modelo ancião dos primeiros casaes
E dos lares de colmo, onde o homem fatigado
De vagar pelo campo, apascentando o gado.
Ou de caçar na selva o antílope veloz.
Vinha, á noite, pensar no seu destino atroz,
Ao lado da mulher e dos filhos pequenos!...
— Mas, por quê? se eram seus todos os bens terrenos!..
O' Natureza mãe, dize-o tu, que o não sei.
— Em que scisma, em que pensa o teu filho, o teu rei ?-
Na selva, era o temor, hoje é a funda tristeza
Que o mina e o faz pensar. — Porque, mãe Natureza —
— Para que lhe serviu tanto heróico valor
E essa alta obstinação de se fazer senhor
De tudo, para ter consciência de si mesmo,
Se lhe fora melhor ficar vagando a esmo,
Entre os bichos irmãos, na floresta natal?
— Ah! muito elle ascendeu, conquistou por seu mal.
Com a instituição da familia primeira
Aos brutos animaes poz-se eterna barreira;
Mas do humano casal quanta fera surgiu!
Fera assim tão feroz nunca, jamais se viu.
Homens ainda mais ferozes que as panteras.
O Rei da creação é o príncipe das feras;
Mas fera sem amor, bicho sem compaixão
Porque assassina o pae, porque trucida o irmão,
Só por inveja, por ganância e por vaidade.
Como sahiste vil, sublime humanidade
Obra de Deus, filha do Mar, fructo do Amor!...
O homem fez-se ladrão, o homem fez-se trahidor, [...]"

Pois então; entre vários versos do escritor que podemos considerar naturalistas, estes foram os que mais chamou-me atenção. Logo, quis aqui publicar. Entre outras coisas do mesmo autor publicaremos em breve aqui. 


(Carlos Dias Fernandes. Imagem da internet)

3 comentários:

  1. Viu, um autor brasileiro e naturalista kkkkk gostei vei, eu não o conhecia e tô passando a conhecer kkk

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  2. Incrível, não o conhecia.A linguagem naturalista misturada com o simbolismo ficou demais!

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