Carlos Dias Fernandes, o amigo do poeta Cruz e Souza

O poeta simbolista paraibano, Carlos Dias Fernandes, foi amigo do autor negro Cruz e Souza. Escreveu homenagens para o colega e esteve de luto na morte do mesmo. Veremos agora alguns textos da relação entre os dois. 


Carta 


— Em 1898, em uma carta a Cruz e Souza, Carlos disse ao 'camarada':

“ Cruz,



Abraço-te com toda a aflição da minha saudade.

Desde que adoeceste, que estou ciente do teu estado; motivos poderíssimos têm-me impedido de te visitar pessoalmente; pessoalmente sim, porque meu espírito estará eternamente contigo. Breve aparecerei para te explicar os motivos da minha ausência. Recomenda-me a O. Favita e abraço teu.” Carta recebida por Cruz e Sousa em 18 de janeiro de 1898.

As palavras acima mostram que o autor que recebeu o papel estava doente. Logo, também vale mencionar que o Fernandes iria visitá-lo. Não parando por aí, Cruz e Souza morre no mesmo ano da carta. O que pode surgir uma tese de que ele já estava muito mal e que o amigo queria ajudá-lo o mais rápido possível.


 Fernandes dedicou um soneto ao Cruz:

“Ah! Que eterno poder maravilhoso
Era esse que o corpo te animava,
E que a tu'alma límpida vibrava
Com um plangente carrilhão mavioso?

Que sol ardente, que fecunda lava,
Que secreto clarão mago e radioso
Dentro em teu ser. Como um vulcão raivoso,
Eternamente em convulsões estuava?...

Que anjos alertas, cândidos e graves,
Faziam de teu ser floridas naves,
Cheias de augustos cânticos eternos?...

Que mão foi essa, lívida e gelada,
Que sufocou tu'alma, acrisolada
Na tortura de todos os infernos?...”



Com algumas pesquisas podemos encontrar outras citações do Carlos Dias sobre a morte do principal nome do simbolismo brasileiro.


Segundo conta Carlos Dias Fernandes (1898), em Vera Cruz , “O trem parou, os passageiros despreocupados desceram; foi mister atingira cauda do comboio, onde vinha o corpo no chão do carro, sobre uns papéis estendidos à guisa de lençol, sem uma flor, sem uma grinalda, sem uma luz. Foi indescritível a cena de dor desenrolada no vagão sem janelas, sem bancos, onde se transportavam muares e bois para o tráfego e açougues da cidade. No leito sujo, que as bestas conspurcavam, jazia imóvel, pequenino, envolto no seu único terno marrom, o ‘homem apocalíptico’ que tivera sempre um sorriso e um hino para todas as galas da natureza, que cantara a vida, o amor e a morte, com todas as transcendências de sua exaltação iluminada”. Cruz e Souza – Obra completa – Volume 1 - Organização e Estudo Lauro Junkes Presidente da Academia Catarinense de Letras.

Também o paraibano escreveu um romance que teve a intenção de narrar mais os fatos do falecimento do amigo.

“O citado Carlos Dias Fernandes foi outro poeta que nadou nas ondas proporcionadas por Cruz e Souza. Outro que viu o poeta morto e escreveu grande volume de documentos sobre ele, sobretudo o “romance” “Fretana”, a quem, num longo poema, rotulava de “anjo Lusbel em ônix modelado”, Cruz e Sousa: Dante negro do Brasil.

"— Ali estava inanimado, empoeirado e mísero, aquele dínamo de requintadas sensações, que, já descrente da vitória pelo heroísmo do seu esforço, estendia a mão desfalecida à justiça dos pósteros:
.................................................................
“Já terás para os báratros descido,
pés e faces e mão e olhos gelados;

mas os teus cantos e visões e poemas
pelo alto ficarão de eras supremas,
nos relevos do sol eternizados".

“Somente os quatro amigos, sensibilizados, chorosos, inconsoláveis compareceram à Central, para receber os despojos estremecidos. Tíbúrcio, Jubim, Frederico e Nestor acorreram, solícitos, ao cumprimento do cruciante dever.
Foi uma surpresa que a todos colheu e consternou, quando estavam justamente no limiar de uma grata expectativa. O trem parou, os passageiros, despreocupados, desceram; foi mister atingir a cauda do comboio, onde vinha o corpo no chão do carro, sobre uns papéis estendidos à guisa de lençol, sem uma flor, sem uma grinalda, sem uma luz. Foi indescritível a cena de dor desenrolada no "wagon" sem janelas, sem bancos, onde se transportavam muares e bois, para o tráfego e açougues da cidade. No leito sujo, que as bestas conspurcavam, jazia imóvel, pequenino, envolto no seu único terno marrom, o "homem apocalíptico", que tivera sempre um sorriso e um hino para todas as galas da natureza, que cantara a vida, o amor e a morte, com todas as transcendências da sua exaltação iluminada.
Quando estavam todos na perplexidade do enterro, entreolhando-se, aflitos, no esbarro brutal daquela emergência, eis que chega Patrocínio, se curva perante o morto, chama Frederico de parte:
— "Mande fazer o enterro de primeira, por minha conta, e uma harpa de lírios, na Rosenvald".
O sepultamento foi naquela mesma tarde, sem acompanhamento e sem fausto. Raros amigos, alguns curiosos. Sobre o esquife, a harpa de Patrocínio lembrava a jerarquia espiritual do morto, a fidalga gentileza daquele voto de saudade.
Os três habitantes de "O Antro" regressaram do cemitério, desconsolados e fúnebres como se houvessem presenciado aos seus próprios funerais. Quebrara-se o elo forte, que fechava a pequena cadeia. Agora, a vida, sem o Cruz e Sousa, parecia erma, fastidiosa, sem finalidade.
Era o espírito de uma época que se sumia na cova, deixando por imprimir os livros a que se imolara, com tanto desprendimento e tenacidade" — Carlos D. Fernandes. (Parte do livro Fretana. Disponível em 'O Secular Soneto').




O Fernandes foi um gênio e aqui no site iremos publicar mais artigos. Então não deixe de acompanhar e saber mais sobre o poeta!

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