5 Sonetos incríveis de Carlos Dias Fernandes

5 Sonetos incríveis de Carlos Dias Fernandes

Carlos Augusto Furtado de Mendonça Dias Fernandes 


Nasceu em 20.09.1874 na cidade de Mamanguape-PB. Foi jornalista, pedagogo, poeta, romancista e claramente fez parte do movimento Simbolista da literatura (nacional) brasileira (O que o fez conhecer e trocar pensamentos com Cruz e Souza). O escritor era completamente defensor dos animais; publicou diversos artigos sobre o tema o que revela que era plenamente vegetariano.  


OFERTÓRIO


Les idéales se succèdent, on les dépasse,
ils tombent en ruine, et puisque’il n’ y a pas
d’autre vie, s’est sur ces ruines encore
qu’il faut fonder un idéal dernier.
Th. Dostoievski

Foi por vós, catecúmenos sombrios
Da excelsa religião do sentimento,
Que de tudo num vago esquecimento
Vaguei da Morte pelos reinos frios;

Buscando a essência em flor do sentimento
Oculta nesses báratros sombrios,
Onde a voz tumular de ventos frios
Geme o salmo do eterno esquecimento.

Foi por vós que eu vivi nas outras vidas
As sensações secretas, doloridas,
Que sufocam os gritos na garganta.

E é por vós que a minh’alma aniquilada,
Nos sudários do Sonho amortalhada,
Das próprias ruínas ressurgindo, canta.


Tedium Teniae


Um tedio verde e uma sinistra hypocondria
Minavam de amargura os meus dias mortaes.
Pessimismo ou Amor? Arte ou Philosophia?
— Era uma Tenia solitaria e nada mais.


E eu nem siquer de tal cousa me apercebia.
Ó apparencias vãs, como nos enganaes!
Eu, em plena eclosão de vital energia,
Devorado em meu ser por helmynthos fecaes!...


Quem tal dissera, assim vendo-me sobranceiro,
Farfalhante e feliz como um rijo pinheiro,
Filho da solidão, principe vegetal?!...


Ah! Mas também a vós, árvores, vos devora
O xilophago roaz, que se gera e que mora
No caule, de onde brota o cheiroso copal.


Em: Solaus. 

URBS MEA


Ergue-te, que já vem repontando a alvorada.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descança.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.

Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
 Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro a legião dos bárbaros avança.

E um assedio ! Vês : —Mouros por toda parte;
 O Reyno de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte ;

Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Symbolo d'Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocados.


Em: Canção de Vesta

AS FLORES



Nascem tenros botões pelo ramo orvalhado.
Reveste a arvore toda um fulgor nupcial:
É a infloração, o recamo irisado
Das frondes—gonfalões da apothéose vernal.

Crysalida a sonhar no casulo fechado
Das sépalas, a flor—borboleta aromal —
As pétalas abriu á luz quente do prado,
Discerrando as juncções do invólucro floral.

Cada ramo se fez uma curva guirlanda,
E, das folhas por entre o verdoengo aranhol,
Voejam colibris numa alada siranda.

Sobem dulias de incenso ao concavo arrebol:
É a arvore, a bracejar, que pelos galhos rrtanda
Beijos de aroma ao ar, hymnos de aroma ao sol.


Em: Canção de Vesta

 BRIÁRIO E CENTÍMANO 


Solitário coqueiro miserando,
Que as tormentas não deixam sossegar!
E, de contínuo, as palmas agitando
Pareces um vesânico a imprecar.


Desgraçada palmeira, como e quando
Irão teus pobres dias acabar;
E com eles ou teu destino infando
De cativo da Terra ao pé do Mar?

Hemos conformes nossos tristes fados.
Tu, germente Briaréu dos vendavais
Eu, Centímano de cem mil cuidados.

Um retorcido aos ventos outonais
Outro com os seus anelos sossobrados...
Nem sei qual de nós dois braceja mais!



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