O que é um Soneto?

O que é um Soneto?


Olá caros leitores deste portal!
Este é meu primeiro artigo literário no site e gostaria de comentar um pouco sobre sonetos.
É uma das formas de escrever poesias que tem ultrapassado gerações e culturas sem perder sua sonoridade e louvor. Claro, não poderia escrever sobre outro tema em primeiro lugar senão sobre esta forma tão bela de escrever poesia.


O QUE É UM SONETO?


Soneto é um poema de estrutura fixa, criado como forma de representar a mais bela poesia. O soneto é composto por quatorze versos, organizados em quatro estrofes, sendo dois quartetos e dois tercetos. Esta é a forma mais comum na língua portuguesa.

Há também outra forma de escrever sonetos, mantendo os quatorze versos, conhecido como soneto inglês ou Shakespeariano, composto de três quartetos e um dístico. Claro, também há o soneto monostrófico, que como o próprio nome diz, é composto de apenas uma estrofe com quatorze versos.

Neste pequeno artigo, focarei apenas no soneto italiano, também chamado de soneto petrarquiano, que em sua forma mais conhecida abriga somente quatorze versos na estrutura mencionada anteriormente, mas que pode aparecer também com dezessete versos, graças ao acréscimo de um terceto chamado de estrambote.

O soneto ainda tem autor desconhecido; embora saibamos que diversos poetas do passado tentaram adaptá-lo a fim de encontrar a forma perfeita, com a sonoridade mais incrível possível. Assim nasceu o soneto, que pode ter sido bem diferente no início e sua forma atual, mais popular, é atribuída ao poeta e humanista Francesco Petrarca.


QUAIS AS REGRAS BÁSICAS DE UM SONETO?


O soneto possui diversas regras, sendo a maioria ignoradas por boa parte dos poetas atuais. Em resumo, as regras mais básicas são:

1. Mesma quantidade de sílabas poéticas por verso
2. Rimas sempre presentes em todos os versos
3. Rimas soantes
4. Ritmo definido
5. Fechamento do soneto deve ser incrível e surpreendente...

Tais regras são as mais básicas, isto é, são as regras para compor um poema que possa ser chamado de soneto.

Não pense que é tão fácil assim escrever um soneto; mas certamente a parte mais difícil de escrevê-lo é definir o ritmo. Muitos poetas do passado tentaram definir ritmos baseados em sílabas tônicas; três formas destacam-se das demais e também focaremos em tais.


RITMOS MAIS COMUNS NOS SONETOS


1. Heroico

Geralmente, os sonetos são escritos em versos decassílabos. Boa parte dos sonetistas optam por definir o ritmo do soneto marcando e pontuando as sílabas  tônicas sempre na sexta e na décima sílaba.

Quando o verso decassílabo é marcado por este ritmo, isto é, sempre ocorrerá sílaba tônica na sexta e na décima sílaba poética de cada verso, é promovido o soneto heroico, ou o soneto de versos heroicos.

Os versos heroicos foram introduzidos na literatura portuguesa pelo poeta Francisco Sá de Miranda, que também é conhecido por ter introduzido o soneto na língua portuguesa. O verso heroico, isto é, com marcação de sílaba tônica sempre na sexta e na décima sílaba poética do verso, foi criado para homenagear feitos heroicos e ficou bastante popular na obra "Os Lusíadas", de Camões.

Exemplo de versos heroicos:

  • As armas e os baRÕES assinaLAdos
  •  Em perigos e GUERras esforÇAdos;


1.1. Martelo

Martelo é uma pequena variação do heroico; é um ritmo brasileiro cuja marcação das sílabas tônicas são feitas na terceira, sexta e décima sílaba poética. Em tese, o verso é classificado como heroico por conter a marcação necessária para tal.

Exemplo de verso Martelo


  • Mas BraSIL é BraSIL, é sempre asSIM.



2. Sáficos

O decassílabo sáfico também é bastante comum, presente em sonetos de Vinicius de Moraes e de Mário Quintana. Sua marcação de ritmo é feita na quarta, oitava e décima sílaba poéticas do verso. Foi criado pela poetisa grega Safo e possivelmente popularizado pelos romanos.

Exemplo de verso sáfico:


  • Tenho paLAvras para TI, aMAda;



Observação:
Versos Sáficos, Martelo e Heroicos podem ser misturados no mesmo soneto sem prejuízo ao ritmo.


3. Alexandrinos

Eis os versos que me encantam!
De certa forma, encantaram também o nosso mestre Machado de Assis, que foi o primeiro escritor brasileiro a utilizar este verso em larga escala, no período do romantismo.

O verso alexandrino, para muitos, é um verso dodecassílabo apenas. Mas não é só isso! O verso alexandrino é o verso popular na língua portuguesa mais difícil de escrever por sua grande complexidade e regras. Ele foi sistematizado pelo escritor português António Feliciano de Castilho,  e é muito utilizado em poemas bastantes trabalhados foneticamente e gramaticalmente.

Listarei as regras para escrever um verdadeiro verso alexandrino:

Primeiro é preciso entender que cada verso alexandrino contém doze sílabas poéticas e é composto por dois meio-versos de seis sílabas cada, chamados de hemistíquios.

Há três pequenas regras para que estes dois meio-versos ou hemistíquios unam-se e formem um verso alexandrino:

1. O verso alexandrino exige sílaba tônica na sexta (última sílaba do primeiro hemistíquio) e na décima-segunda sílaba poética (última sílaba do segundo hemistíquio) para marcar o ritmo.
Exemplos:

  • A casa que foi MInha, hoje é casa de DEUS.
  • Traz no topo uma CRUZ. Ali vivi com os MEUS,

2. A sexta sílaba (primeiro hemistíquio) deve ser a última sílaba de uma palavra oxítona, mas é possível que tal sílaba seja preenchida com a tônica de uma palavra paroxítona, porém tal palavra deverá obrigatoriamente terminar em vogal e a palavra seguinte (segundo hemistíquio) deve também começar com vogal para que possa ocorrer elisão; assim os meio-versos unem-se formando apenas um.


Exemplos:


  • Deixo e vou vê-la em MEIo_aos altos muros SEUS.
  • Sai de lá uma PREce_elevando-se aos CÉUS

3. É preciso evitar que palavras proparoxítonas ocupem os lugares tônicos que marcam o ritmo; ou seja, na sexta e na décima-segunda sílaba só cabem palavras oxítonas e/ou paroxítonas, segundo regras anteriores. Geralmente os poetas terminam o segundo hemistíquio com palavra paroxítona, também chamadas de palavras graves. Recomenda-se portanto, para manter a boa construção do verso alexandrino, terminar sempre o verso com palavra paroxítona. Outra recomendação é tentar sempre terminar o primeiro hemistíquio com palavra oxítona, caso não seja possível, utilize uma paroxítona terminada em vogal e inicie o segundo hemistíquio com palavra iniciada em vogal para que possa haver elisão, fundindo assim a sílaba que sobra do primeiro hemistíquio com a sílaba inicial do segundo.

Lembrando que o motivo de tal exigência quanto ao uso de palavras paroxítonas no final do primeiro hemistíquio é bem simples:

Ao terminar o primeiro hemistíquio com palavra oxítona, temos um verso independente de seis sílabas poéticas exatas, que se juntarão ao segundo hemistíquio que também possui seis sílabas poéticas exatas, totalizando doze sílabas necessárias para o alexandrino.

Ocorre que, ao terminar o primeiro hemistíquio com palavra paroxítona, uma sílaba ficará fora da contagem, pois como sabemos, as sílabas poéticas são contadas somente até a sílaba tônica da última palavra do verso, e como a última palavra do primeiro hemistíquio é paroxítona, isto é, tem como tônica sua penúltima sílaba, teríamos uma sílaba a mais , que ao se juntar com o segundo hemistíquio de seis sílabas, formaria um verso com treze sílabas e não doze, como exige o alexandrino.

Por isso se faz necessário que ocorra elisão entre os meio-versos; neste caso, a sílaba que resta da palavra paroxítona do primeiro hemistíquio fundir-se-á com a sílaba inicial do segundo, absorvendo assim a sílaba sobressalente e promovendo com isso o dodecassílabo necessário ao alexandrino.


Cabe lembrar que o verso alexandrino praticamente foi banido pelas primeiras gerações do Modernismo, porém foi bastante popular no Parnasianismo.


PADRÕES DE RIMAS


Além do ritmo, as rimas são cruciais num soneto. E de fato, sem as rimas, parece que falta algo no poema. Os sonetos exigem rimas soantes, embora alguns poetas usem rimas toantes ou mesmo versos brancos, que são versos metrificados porém sem rima.

Os padrões de rima dos sonetos são organizados por estrofes, sendo os quartetos mais importantes nas rimas e os tercetos permitem maior liberdade. É altamente recomendável evitar o uso de mais de três rimas distintas no soneto. Poetas mais antigos chegaram a utilizar quatro, esta quantidade pode ser bem aceitável para a maioria.

Os padrões de rimas mais utilizados em sonetos são:

Opostas: ABBA

Exemplo:

"Saudades! Sim.. talvez.. e por que NÃO?...
Se o sonho foi tão alto e FORTE
Que pensara vê-lo até à MORTE
Deslumbrar-me de luz o CORAÇÃO!"
(Florbela Espanca)

Alternadas: ABAB

Exemplo:

"E a alma pura nos seus olhos BRILHA
Em desmaiado VÉU,
Como de um anjo na cheirosa TRILHA
Respiro o amor do CÉU!"
(Álvares de Azevedo)


Emparelhadas: AABB

Exemplo:


"Mais que a sombra da noite ele subiu, ALÉM;
Inveja nem calúnia, ódio nem dor TAMBÉM,
Nem esta inquietação que é dita, e mal, PRAZER,
Podem tocá-lo ou fazê-lo mais SOFRER..."
(Percy Bysshe Shelley)


Os tercetos já dão maior liberdade ao poeta, sendo possível diversas combinações de rimas, tais como:

CCD/EED
CDC/CDC
CDD/CEE
CDC/EDE

A forma que mais utilizo, e acho a mais bela é:
ABBA nos quartetos e BBA nos tercetos. Mantenho o mesmo par de rimas até o final, assim, deixo as rimas "abraçadas", vejam:

ABBA -> Quarteto 1
ABBA -> Quareto 2
BBA -> Terceto 1
BBA -> Terceto 2

As rimas "A" abraçam todas as rimas "B". Dá uma sonoridade incrível e fica mui belo.



O QUE SÃO RIMAS?


As rimas são realmente importantes no soneto, e para que tudo seja o mais belo possível é necessário usar rimas soantes.

Rimas Soantes

Rimas soantes são as que possuem a mesma sonoridade ou mesma terminação fonética. Lembrando que a rima começa sempre com vogal, geralmente tônica.

Exemplos de rimas soantes:

Mesa/Tristeza (sonoridade igual)
Beleza/natureza (terminação fonética igual e sonoridade igual)
Amor/Dor
Felicidade/Cidade
Intensamente/calorosamente
Lua/Rua/Nua


Rimas Toantes

Quando a sonoridade e/ou a grafia são distintas.

Exemplos de rimas toantes:

Estrela / Bela
Povo/Povos
Mais/Paz
Boca/Foca
angústia/hóstia
Pranto/Plano


Agora que já sabes as técnicas empregadas na composição de um soneto, faz-se necessário aprender a contar as sílabas poéticas. Claro, não falarei a respeito neste artigo, talvez noutro. No momento, recomendo pesquisar no Google ou mesmo no Youtube sobre escansão e contagem de sílabas poéticas.

Desde já, sou grato pela atenção de cada um e pela paciência em ler este artigo grande.
Espero que tenhas gostado de lê-lo.


Agora que já sabes as "manhas" da fabricação de um soneto, que tal "fabricar" um?

Como demonstração do que foi escrito por mim, deixarei abaixo um soneto meu, escrito em versos alexandrinos (Lembrando que tanto este quanto outros sonetos meus podem ser lidos clicando aqui).



Inferno III: Novo Lar



Esta vil sensação causa-me uma amargura
que me derrete atroz, matando-me de novo...
E no triste sofrer noutras lágrimas chovo
cansado de morrer nesta densa ternura...
Não há fogo a queimar mas este mundo é covo
e as torturas aqui são parte da cultura...
Sensação do que fui é abreviatura
mediante o que sou neste inferno retovo...
E sofro nesta dor, perco até a postura
neste mundo sem cor de cruel tessitura
em que há amargo mel, que amargamente provo...
Mas é meu novo lar, minha nova estrutura
Aqui, quero reinar; serei outra criatura...
Quando se apaga a luz, todo o teu mundo estrovo.
* Soneto Alexandrino

Gustavo V.S Ferreira
29/05/2018

2 comentários :

  1. Gostei,um artigo muito bem escrito e construtivo,deu até vontade de escrever um soneto kk.

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