As intermitências da morte - Resenha do leitor #2

As intermitências da morte - Resenha do leitor #2

Há exatos vinte anos, em 1998, um ano antes do meu nascimento, José Saramago, esse gênio da literatura mundial ganhava o prêmio Nobel da literatura com o seu livro "As intermitências da morte". E por coincidência da vida, nesse ano (2018) eu conheci uma das obras do José Saramago que foi esse mesmo livro que levou o prêmio Nobel da literatura. Depois que li este livro eu me apaixonei pelo José Saramago e também me apaixonei muito pela cultura portuguesa, principalmente pela língua portuguesa, que mesmo sendo nossa língua também existe algumas diferenças na escrita entre o português de Portugal e o português do Brasil. Quem me conhece sabe que meu patriotismos acaba me deixando um pouco xenófobo. Eu sempre ponho o Brasil em primeiro lugar quando se trata de cultura e acabo por ignorar a cultura de outros países, mas depois que li a obra do Saramago, o meu lado xenófobo desmoronou pelo menos no que se diz de cultura portuguesa, fazendo o Saramago entrar para minha lista de portugueses que eu amo, ao lado de Fernando pessoa, Florbela Espanca e claro a Margarida, que de alguma forma me aproximou da cultura portuguesa; sendo ela a portuguesa mais simpática e confusa que eu conheci (rsrs).



Sinopse do livro:

Depois de séculos sendo odiada pela humanidade, a morte resolve pendurar o chapéu e abandonar o ofício. O acontecimento incomum, que a princípio parece uma benção, logo expõe as intrincadas relações entre Igreja, Estado e a vida cotidiana.
"Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto", escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura.
Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu novo romance, As intermitências da morte . Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.
Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder "passar desta para melhor". Os empresários do serviço funerário se vêem "brutalmente desprovidos da sua matéria-prima". Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja".
Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?
Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta "ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte". É o que basta para Saramago, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana.
"No dia seguinte ninguém morreu." Dessa forma José Saramago começa um dos livros (ou conto, como ele mesmo gostava de chamar) mais incríveis que eu já li em toda minha vida. Sem exagero algum! Isso não é uma hipérbole, José Saramago é sim um dos melhores autores que já li junto a Clarice Lispector e Ariano Suassuna. "As intermitências da morte", conta de uma forma irônica, engraçada e deliciosa a história de uma figura macabra, temida e muitas das vezes odiada por todos.

No primeiro dia do ano, naquele país, não houve qualquer relato de morte sequer. Ninguém morria. Nem os que se acidentavam, nem os que já estavam a beira da morte e nem muito menos os que tentavam prática o suicídio. Por incrível que se possa parecer, a morte tinha encerrados suas atividades naquele país e ninguém mais morria daquele dia em diante. Os portugueses foram a comemorar, pois a morte que era detestada por todos, coitada, encerrava ali suas atividades que não tinha prazo para regressar. Mas ao passar do tempo, nota-se que a aposentadoria da danada afetava diretamente muitas pessoas naquele país que precisavam da morte como solução para acabar com o sofrimento.

Começa a aparecer os problemas no país. O Cardeal foi o primeiro a ligar para o primeiro ministro e dizer que isso era uma desgraça sem tamanha medição. Pois sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há porque ter igreja. O segundo a ligar é a organização da agência funerária que reclama que os negócios vão de mau a pior, pois se ninguém morre não haverá razões para fabricar caixões e manter as empresas funerárias abertas. O terceiro a reclamar são os hospitais, que de fato já estão a lotar porque ninguém morre mais. Ainda tem o asilo que se persistir a morte em não matar mais, encherá de forma que não terá mais como cuidar de tanto idosos. E por fim as empresas de seguro de vida que reclamam que se ninguém mais morre naquele país, mais ninguém quer contrata seguros de vida.


Nas primeiras páginas o leitor se depara com uma série de problemas que persiste por um longo período. Mas quando se dá continuidade ao livro, mas páginas seguinte o leitor conhece uma personagem surpreendente que ninguém definiria como a morte. O último capítulo do livro incrivelmente de abalar o emocional de muitos leitores, ou pelo menos o meu foi abalado.




Curiosidades sobre José Saramago:

Saramago em toda sua vida, entre romances, contos, peças de teatro, crônicas e poemas ele escreveu cerca de 32 obras. Saramago se considerava ateu e criticava às vezes a questão da existência de Deus. Ele era amigo pessoal de Jorge Amado, o maior escritor baiano de todos os tempo, e que por acaso é meu conterrâneo (cof cof). Outra curiosidade que apresenta importância está na escrita do dele. José Saramago tinha a seu próprio estilo de escrita. Ele não usava ponto de interrogação nas perguntas, nem exclamações nas frases exclamativas, o uso de parágrafos são bem reduzidos e ele não usava travessões e nem aspas para indicar a fala do interlocutor, ele usava a vírgula e iniciava a fala do personagem com o uso da letra maiúscula. Logo de início um leitor que não é acostumado acaba se perdendo em partes, mas depois de duas ou três folhas você consegue perceber e se adaptar a escrita dele.

Bom, foi isso leitores. Espero que gostem desse português gênio que eu passei a amar, e que se depender de mim José Saramago sempre terá um espaço no altar dos livros (na minha estante).

Resenha publicada por: Felipe Nascimento Brito. BA - BRASIL.  

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