Alice e Lucy No Céu das Maravilhas — Cristian Lima

Alice e Lucy No Céu das Maravilhas — Cristian Lima


Imagine-se em um barco num rio
Com árvores de tangerina e céus de marmelada
Alguém lhe chama, você responde lentamente
Uma garota com olhos de caleidoscópio

Flores de celofane amarelas e verdes

Crescendo por sobre sua cabeça
Procure a menina com o sol em seus olhos
E ela se foi
Lucy no céu com diamantes


— Lennon e McCartney, Lucy In The Sky With Diamonds (1967).

Curiosa criança, remota Alice, empresta-me teu sonho:

Eu desprezaria os contadores de histórias de hoje,
Seguiria contigo o riso e o fulgor:
Estou fatigado, esta noite, de santos e pecadores.
Somos amigos desde que Lewis e o velho Tenniel
Encerraram tua imortalidade em vermelho e dourado

Vem! Tua ingenuidade é uma fonte perene.
Deixa-me ser jovem de novo antes de ser velho.
És um espelho de juventude: esta noite escolho
Perder-me profundamente em teus labirintos mágicos,
Em que a Rainha Vermelha vocifera em esplêndidas nuances
E o Coelho Branco segue apressado seu caminho.
Vamos mais uma vez nos aventurar, de mãos dadas:
Faze-me de novo acreditar – no País das Maravilhas!

— Vincent Starrett, no livro Brillig: Sonnets and Other Verse (1949), usado na edição ilustrada de Alice No País das Maravilhas (2002).


Onde Os Coelhos Se Encontram


Em 1951, chegava aos cinemas a clássica animação em Technnicolor, Alice No País das Maravilhas, produzido nos estúdios da Walt Disney. A liberdade artística fruída pelos animadores não embargou, de todo, a entrada no universo de Lewis Carrol, autor do livro original. É inconteste a semelhança entre as ilustrações de Tenniel, ilustrador oficial de Alice, e a animação da Disney, sendo que ambas as histórias perfazem quase o mesmo caminho. O onírico universo de Alice é colorido e possui o hábito, ao mesmo tempo, incômodo e divertido, de não seguir as leis da física. Um universo parecido é exposto em O Mágico de Oz, filme de 1939, baseado na obra de L. Frank Baum, no qual Dorothy passeia por entre flores coloridas e tijolos amarelos (e as  cores somente podem ser vistas no mundo de Oz, significando um mundo belo e feliz, em contraste à sua vida no mundo real: sem cor, sem graça). Em 1964, John Lennon publicou nas livrarias inglesas e americanas livro Is His Own Write, uma coletânea de poemas, quase todos de natureza surreal, ao estilo nonsense. Se houve uma inspiração, por mais que pequena, na obra de Carrol, não há como se ter convicção.
Por volta de 1967, falece uma menina chamada Lucy, colega de escola de Julian Lennon, que inspirou John Lennon a compor a música Lucy In The Sky With Diamonds, cujo videoclipe remete a um mundo psicodélico e apinhado de cores, onde o ambiente ondula e dança ao ritmo da música — e há bastantes similaridades entre o universo de Alice e o de Lucy (com a exceção de que Lucy está morta). Os dois movimentos artísticos, apesar de separados por mais de um século beijam-se e agradam-se um sobre o outro. A psicodelia sofreu influxo do movimento hippie, que alcançou seu ápice na década de 60, tornando-se uma vertente do Rock'n'roll. Bandas como Jefferson Airplane se encantavam com o surreal, as cores e a magnitude estética daquilo que é sem sentido. As músicas psicodélicas são compostas para se viajar a mundos distantes, como se as notas tivessem cores e formas. Se contêm mensagens, podem ser ocultadas por saídas mirabolantes e bem estruturadas na forma de uma maluquice sem tamanho, assim como em Alice.



E uma pílula deixa você pequeno
E as que sua mãe te dá
Não fazem efeito algum
Vá perguntar à Alice
Quando ela estiver com dez pés de altura

E se você for perseguir coelhos
E você souber que irá cair
Diga a eles que uma lagarta fumando narguilé
Lhe convocou
Chame Alice
Quando ela era apenas pequena (...)

(...) Quando lógica e proporção

Tiverem caído por terra
E o Cavaleiro Branco estiver falando ao contrário
E a Rainha Vermelha com o seu, "Cortem-lhe a cabeça!"
Lembre-se do que o rato silvestre disse
"Alimente sua mente"
"Alimente sua mente"

— White Rabbit, de Jefferson Airplane (1967).

A música refere-se a uma das cenas icônicas de Alice no grande salão com todas as portas trancadas e há apenas uma mesa de vidro maciço com uma chave de ouro. Ao usá-la em uma das portas, Alice se depara com uma outra porta do tamanho de uma toca de ratos. Ao retornar para a mesa, outro objeto havia se materializado do nada: um frasco com a mensagem "beba-me". Alice obedece o rótulo e bebe o conteúdo, sendo condenada por sua própria curiosidade. No trecho "E uma pílula deixa você pequeno/E as que sua mãe lhe dá/Não fazem efeito algum/Vá perguntar à Alice/Quando ela estiver com dez pés de altura", a mensagem é contrária e induz Alice a desobedecer a mãe e procurar a pílula que a leve ao País das Maravilhas, uma metáfora ao LSD, uma droga comum à época e o motor de inspiração para parte vigente das bandas de rock psicodélico de 1960. "Quando lógica e proporção/Tiverem caído por terra/E o Cavaleiro Branco estiver falando ao contrário/E a Rainha Vermelha com o seu, 'Cortem-lhe a cabeça!'/Lembre-se do que o rato silvestre disse/'Alimente sua mente'/'Alimente sua mente'" — ainda que se tendesse a combater o uso de drogas com argumentos lógicos, por décadas não houve ímpeto por turno dos pais nem do governo para se embargar o uso e o abuso delas. O âmbito musical foi fortemente influenciado por esse consumo desenfreado de entorpecentes. Em Lucy in the Sky with Diamonds, as iniciais dos substantivos formam LSD, conquanto John Lennon alegue que sua música é inspirada em um desenho que seu filho fez para a falecida Lucy, em um mundo de diamantes, que talvez tenha imaginado ser o céu. No livro de Alice, a curiosidade é levantada como um aspecto negativo em que a protagonista sempre se vê em situações complexas e confusas e quase literalmente perde a cabeça. Na música White Rabbit, você deve se deixar conduzir pela curiosidade e escutar o rato silvestre uivar para que ele lhe entregue a pílula para você alimentar sua mente. Para Lucy, estar no mundo de diamantes é estar morto (uma sugestão interessante, mas pouco coerente para Dorothy). Em o Mágico de Oz, não é necessário estar morto ou usar drogas para se encontrar o paraíso, no entanto, uma vez nele, é, sem dúvidas, superior aos mais candentes, surpreendentes e desvairados paraísos o próprio lar, pois não há nada melhor do que o lar.
As viagens que a literatura e a música proporcionam nesse gênero são muito ricas e vivenciar cada uma delas é deliciante. Determinados movimentos geraram ecos de sua grandeza por toda humanidade e podem ser replicados à vontade por qualquer um. Quando Alice estava em queda livre pela toca do coelho, encontrou tempo de formular em sua mente a frase "às vezes morcegos, comem gatos; outras vezes, gatos comem morcegos". O significado ou "dessignificado" disso não é tão importante quanto a intenção de entender, mas há um fato: em um dia você pode ser um morcego e à noite, pode ser um gato. São chaves de cultura, o ouro humano, que podem ser multiplicadas e reutilizadas. Um pedaço de paraíso para a vida, uma cor para um mundo que se assemelha tão descolorido e fosco, onde o sorriso do Gato de Cheshire não pode flutuar. Alice nos deu a curiosidade e nós a aceitamos; Lucy, os diamantes, e nós os aceitamos; Oz, o nosso lar. Onde você escolhe morar?



Alice e as Chaves de Mão

Por que Alice no vasto salão da rejeição
Às portas do paraíso, avistou chave de ouro?
Hernán Cortez, com a chaga da alma,
Almejava da terra maia não seu couro
E sim aquilo que reluz seu câncer, sua paixão
Que não se aquece por fogo ou por sauna,
Mas por um vilão de temerário vermelho
Não houve, portanto, chave de elo
Aflorado de um alento espontâneo
Não houve sequer nas escalas de um pentelho.
Apodreceram os que não eram belos
E os que não possuíam o brilho áureo
Boa viagem e a Alice meus santos sinceros,
Pois, de competir, não me reconheço páreo
Alice era tão pura que a chave olvidou
Por cima da maciça mesa de vidro
E nunca mais à sala remigrou
A peregrina de gracejos desconcertados
Alice, que bem vês por não veres em dourado
O encantado ouro de tolo, que se replica
Sempre que chamado,
Não há chave de mão
Que cubra o semblante de fome
Alice, quando ressaltares teus cabelos,
E repetires que não és a Ada nem Mabel
Remeta às moedas sem a cor de mel
Porque todos querem sua chave dourada
Mas ninguém consegue tua mão espalmada.


— Cristian Lima, (2020).

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