Beatriz Lisboa — A Historieta de Aline

Beatriz Lisboa — A Historieta de Aline

Aline caminhava a passos largos, segurando a sua pasta rente ao corpo. Assim que virou a esquina sentiu o coração palpitar. Por mais que todos seus amigos lhe dissessem que escrevesse bem, Aline só acreditaria quando Paulo anuísse seu escrito.
A jovem entrou na editora. Não demorou muito e estava diante de Paulo, com a voz tartamudeando disse:
— Bom dia, senhor Paulo, aqui está o conto.
O homem de meia idade apenas pegou o conto e começou a ler. Aflita, Aline esperava uma resposta, torcendo para que Paulo fosse benfazejo.
Então, com os olhos rutilantes, Paulo ergueu a vista.
— Estou sem palavras.
E ao falar abriu um sorriso.

— Beatriz Lisboa

Em um encontro passageiro, Aline, uma representação poética de todos os escritores, pôde, por fim, encontrar o fulgor em um sentimento imensurável: quando encontra a projeção de um editor (ou, porventura, de um crítico) de cuja experiência se inveja e se admira (os sentimentos irmãos), e tão bem se teme. Eles compõem os grupos velhos, os expoentes mais antigos e, por vezes, defasados, que, ainda assim, orquestram e compartimentam a literatura. Aline somos todos nós: ansiosos escritores em busca de aprovação, sem necessidade dela, pois a autocrítica é como uma foice com a lâmina curva direcionada aos próprios olhos. E que beatitude (em uma referência pouco convencional à sua escritora), que alegria candente ocorre quando alguém que não nós mesmos se agrada de reter aquilo que foi impresso de nosso interior, penejado com esmero em um folha e produzido por nossos membros cansados à meia-noite, pois não houve uma rosa fulgurante às 10 horas da manhã. Essa é a alegria de Aline, a qual se permite compreender assim que, concluído o texto, entrega-se a um amigo e ele lhe responde "que lindo ficou" e sorri com os lábios ou por mensagem. Há uma auréola esfuziante sobre as cabeças de quem suas obras sãos dignificadas, em detrimento de tantos que não não puderam visualizar a mobilização de seus trabalhos, como Augusto dos Anjos, falecido em 12 de novembro de 1914, rejeitado por poetas parnasianos tal qual Olavo Bilac, que, como réplica a um de seus admiradores, disse-lhe, com desdém, "é este o seu grande poeta? Fez bem ter morrido!". Não há quem se preste a sentar à frente de um notebook e escrever algo para alimentar-se a si mesmo com seu talento. Se há diários, há a carência de alguém mais e há, se são secretos, há escassez de confiança na humanidade (uma das anomalias mais dignas e corriqueiras). Em ambos os casos, a retroalimentação é fruto da ausência, como se a fala precisasse de um ouvinte, como se o texto precisasse de um leitor, todavia ,segundo Anne Frank, "o papel é mais paciente que os homens". E, ainda assim, quem fabricara o papel senão os homens. Antes de tudo e antes de entregar a folha a Paulo, Aline confrontou o seu reflexo no papel — e ai se não visse seu reflexo! Antes mais, Aline somos todos nós, em busca da alegria do orgulho, do pecado que, bem construído e bem usado, é o portento da alma e o que mobiliza a arte. Citando Mário de Andrade, Pauliceia Desvairada, em seu Prefácio Interessantíssimo, "versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se Quem não souber cantar não leia Paisagem nº 1. Quem não souber urrar não leia Ode ao Burguês. Quem não souber rezar, não leia Religião. Desprezar: A Escalada. Sofre: Colloque Sentimental. Perdoar: a cantiga do berço, um dos solos de Minha Loucura, das Enfibraturas do Ipiranga. Não continuo. Repugna-me dar a chave de meu livro. Quem for como eu tem essa chave."
Somos todos Aline

Beatriz Lisboa nasceu em 13 de agosto de 1999, em Peixoto de Azevedo, interior do Mato Grosso. Leitora contumaz de poesia e ficção, é graduanda em Psicologia pela Universidade de Cuiabá e do mesmo modo se dedica a livros acadêmicos. Poetisa e escritora por vontade e brilho próprios e ainda um dos constroem a literatura brasileira na era hodierna.

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