Danilo Soares — Conto Vínico

Danilo Soares — Conto Vínico


A porta de metal gritou quando se escancarou e Danilo semicerrou os olhos com o ruído agudo nos tímpanos. À medida em que ele estagnou o corpo em um cadeira, começou a penetrar em um mundo de sonhos. Quando  se apercebeu, encontrava ao espelho tingindo as bochechas com urucum. Voltara a escrever. O hiato foi uma resolução atinada por sua mente devido à crise existencial na qual esteve imerso durante o processo de isolamento social. Pensamento do dia: o vírus infectou humanos de todo o mundo, mas o mundo já estava infesto de humanos. Pegou seu celular e começou a discorrer sobre como a filosofia enquanto fumava um cachimbo. A sua face era lânguida, com um olhar ricto de ervas poderosas e, quase sempre, suas divagações eram de uma intensidade branda. Em seguida, desaparecia das redes. Necessitava de espaço para si. No dia anterior, discorreu sobre como precisava retirar o que não fosse vital, incluindo contatos e redes sociais inúteis — algo que, para a filosofia, é nominado de lógica. Se minhas necessidades são supridas por um pessoa ou duas, outras quatro seriam uma futilidade. O lugar em questão se assemelhava a um antigo boticário ou a taverna de Álvares de Azevedo. Tudo o que se conhecia a respeito eram as copiosas bebidas as quais eram vendidas.
Danilo despertou sobre uma mesa de madeira e a sua face exalava uma aura inebriada e surtante. Ele era um homem jovem e esbelto. Conservava um bigode e uma barba a seu modo, e não se aturdia com comentários acerca de seu corpo. Habitualmente, rebatia-os com frialdade e orgulho, uma palavra que compunha seu léxico há bastante tempo. Levantou-se da cadeira. A sua postura era completamente displicente, e ele sentiu a ranger espinha dorsal enferrujada e resmungou de dor. Foi até a bancada, ergueu a portinhola de madeira e procurou nas paredes lotadas. As prateleiras rústicas incorporavam uma auréola fina e antiquada, contendo uma infinidade de bebidas com rótulos diversificados; todavia Danilo procurava uma bebida em específico. Envolveu com as mãos o gargalo de um Gallo e removeu a tampa. Retornou à sua cadeira e começou um longo período de brainstorm. Entornou a garrafa em um taça e colocou uma música de Froid, meneando a cabeça e os braços, do jeito correto de se ouvir um Rap. O vinho possuía o cheiro das uvas e a cor vermelha mais oculta de todas e ele a adorava como uma divindade entre os líquidos essenciais. Entre reflexões, Danilo abriu o WhatsApp no celular e decidiu gravar um vídeo para os seus status. Segurou a garrafa de vinho e pôs-na perto do corpo enquanto digitava um poema para enviar para Roana.
— Pare. — uma voz ordenou. Danilo rodopiou a vista até o limite conhecido dos olhos, mas não conseguiu estabelecer relação da voz com o resto do ambiente. Era como se o som fluísse de de si mesmo. Danilo pegou a garrafa com as duas mãos e fingiu ler o rótulo (sua vista estava demasiado turva), com os olhos arregalados e colocou a garrafa sobre a mesa.
— Você vai me deixar aqui? — afirmou a voz, novamente. Foi apenas então que Danilo começou a obter uma percepção mais apurada dos sentidos. Não sabia a qual nível de alucinação havia assomado.
— Eita, bro. Que viagem é essa? — ele disse. — Quem tá aí?
— A garrafa de vinho. — A voz respondeu, Danilo permaneceu em riste e mexeu os braços irracionalmente.
— Meu nome é Vinia. — disse a garrafa. — Sou a entidade protetora dos vinhos.
— Vinia?
— O quê? — Danilo riu, confuso. Não encontrou no chão a firmeza de sempre e pressentiu a gravidade puxando-o para baixo. Como poderia aquela garrafa de vinho estar conversando com ele. Mas estava e a voz pesarosa ecoou novamente. Dessa vez, a garrafa de vinho, com o rótulo Gallo se moveu na mesa e quase caiu.
— Eu faço parte da sociedade dos vinhos. Você está assassinando a nossa população. Não se sente mal com isso?
— Provo que a mais alta expressão da dor consiste essencialmente na alegria. Eu bebo vinho para escrever poesia. É o combustível para suportar o mundo tal qual ele é.
— Estou ciente da minha qualidade em maquiar seus sentimentos obscuros. Estou interessada tão somente em seus assassínios imperdoáveis.
— Brother. Eu estou dialogando com uma garrafa de vinho. Que que tá acontecendo? Isso é uma pegadinha?
— NÃO É UMA PEGADINHA! — Vinia berrou com uma voz esganiçada. — Aceite. Eu estou viva. Nós somos seus companheiros há bastante tempo, Danilo. Conhecemos sua aura de poeta, a sua admiração por Augusto dos Anjos, a inspiração embebida em Bukowski e seu orgulho inflamado pela sua etnia. Até o seu niilismo fraco.
— Você esteve me observando?
— Sí. Yo estaba. — a garrafa continuou. — Y necesito hablar contigo. 
— ¿Hablas español?
— Tambíem. Escuchame. Pones a nuestra gente en peligro. Yo necesito poner un límite a esto. ¿Lo entiendes?
— O que pretende fazer?
— Eu  vim aqui puni-lo.
— Como? — ele indagou com um leve toque de curiosidade e um desdém proporcional.
— Fabricado da substância de nossas almas, o único bem que não nos foi concedido por mão humanas, eu posso amaldiçoá-lo. Vim para ratificar a medida disciplinar. Você foi acusado de exterminar dezenas de garrafas de vinho inocentes de nossa espécie... E por isso — Vinia disse com um tom solene. —, eu vou retirar algo importante para você: a poesia. Não conseguirás mais encaixar palavra coma palavra. Está será sua sina.
— Não, véi. — disse Danilo, mas resposta foi nula. Danilo então pegou seu celular e tentou digitar algo, mas, quando ia digitar, a tela do celular se apagava por alguma força misteriosa, e as palavras  não podiam ser expressar. Procurou uma caneta que havia De fato, havia bebido demasiado vinho naqueles tempos. Talvez devesse estar causando um efeito psicoativo grave em sua mente. Vinia era como uma personificação de Dionísio, deus romano do vinho: concedeu a bebida como um presentear dos deuses aos homens. Por que desejaria readquirir a posse. Não. Não era um deus, mas o seu eterno oposto. Era um demônio, com vias divinas. Ele havia sobreposto a forma de uma garrafa de vinho para retirar do homem o que há de mais valioso: a arte. Concluiu, por fim, que estava louco e que a explicação era mais simples do que imaginava. Mas, para isso, ele carecia ter certeza.
Assim que chegou a casa, recebeu uma encomenda. Era um notebook que, há algum tempo, ele havia encomendado pela Internet e, finalmente,  havia sido entregue. Danilo assinou alguns papéis e o carteira se foi. Imediatamente, ele abriu o pacote e ligou-o, mas se surpreendeu quando foi digitar algo em seu blog. Ele não conseguiu pensar em nada. Imaginou ser apenas um bloqueio. No entanto, também não conseguia digitar no celular nem fazia ideia de onde estava sua caneta, embora estivesse convicto de que a havia justaposto entre a mochila e a televisão. Não conseguiu digitar palavra alguma.
Pediu a Roana, uma amiga de longa data, para que ela escrevesse uma poema por ele, mas a tentativa também foi falha. Quando Danilo se empenhava para pensar, as palavras não eram emitidas e, se saíam, soavam embaralhadas. "Não poderia ser", ele pensou. Isso persistiu por cerca de dois meses antes de Danilo não conseguir mais suportar a melancolia e a multidão dentro de si mesmo.Retornou à taverna e encontrou-se com Vinia. A garrafa estava na estante e ele a reconheceu de longe, pegou-a e colocou sobre a mesa bruscamente. A princípio não soube como a reconheceu dentre tantas variedades de outras garrafas exceto pelo seu rótulo negro com as letras douradas.
— Eu não aceito mais isso. Quero meu poder de escrever poesia novamente. Você não vai pode me privar de escrever poesia.
— Dê-me um bom motivo.
— Porque você não tem o direito de privar a expressar. Eu sonhei com a morte. Agonia e dor. Quando eu sorvo uma taça de vinho dos seus companheiros, eu não os assassino; ele serão sintetizados dentro do meu corpo, processado. Então, eles se transformarão em mim, porque cada átomo do meu ser pertence também aos outros. Meus átomos já estiveram dentro de outros seres, de outros corpos... de alguma outra garrafa. Quando se há o toque, parte dos átomos permanece, eu me vou. Reconheci-te entre as demais garrafas, pois, graças a ti, recebi claridade para ver os átomos que deixei em você. Eu não sou assassino, você é.
— Tu não irás redigir um poema sequer enquanto estiveres vivo.
— Nesse caso. — Nesse instante, Danilo segurou a garrafa pelo gargalo. — O beijo, amigo, é a véspera do escarro. A mão que afaga é a mesma que apedreja.
— O que pensa que está fazendo?! — gritou Vinia, em desespero. — Solte-me! Isso não vai alterar o seu estado.
— Nesse ponto, você não foi inteligente. Condenou um poeta, e nós já somos homens mortos.  atirou-a contra a quina da mesa e ela se quebrou em nacos afiados. Danilo apanhou maior dele, pontiagudo como uma faca e perigosamente reluzente à luz daquela lâmpada quente e, com ela, cortou a própria garganta. Estando condenado à sua profecia, com a mão ensaguentada, desenhou as letras na parede:


A paixão é melancólica
A poesia é como a morte
O que dá para a vida o norte
— Agora, eu sou um poeta. Eu sou meu próprio assassino.



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