Filhos da Vida e Da Morte

Filhos da Vida e Da Morte

Os espelhos em suas mãos, noutra seu arco
A guirlanda de flores não guarda seu mel
Vitórias-régias compõem um batel
A carne exala apenas um sorriso parco
No ror das desventuras

Filho da água, cortada pelo prumo da canoa
E pelas caravelas da vermelha cruciforme
Toda a morte é uma afilhada disforme
Da beldade da vida.

Eu quero reprimir os votos que fiz a ambos lado
Não houve rancor quando não havia ponteiros
Agora não há qualquer vento que mobilize minha fúria.
Brasil sem a cópula dos lusos
Sem o sacrifício do tempo, o assassínio
É como o saci
Recordo os indígenas, mas o Danilo é melhor falante de Tupi.


Há um histórico de inglórias quanto aos afamados impérios da antiguidade. Quinhentos anos antecedidos e vigora uma era de expansionismo comercial, à moda luso-espanhola. Dois impérios (diminutos, no comparativo a suas colônias, contudo ambiciosos e astutos em uma medida imensurável) da península ibérica, e então rivais imperialistas. O território indígena foi invadido em 22 de abril de 1500, e, a priori, nominado Terra de Vera Cruz. Houve um intervalo de dez anos até o povo lusitano ponderar a utilidade das terras brasileiras e, por fim, iniciar a colonização. Não houve piedade para os langorosos, pois seu rancor não foi explicitado. Se houve um herói aborígene, seu peso individual se equivalia ao de seus conterrâneos e, por isso, não houve destaque. O tupi antigo é uma linguagem a qual, tal como o grego e latim, não existem mais falantes, no entanto há de se notar o quão honradas elas são (o latim ainda utilizado para fins taxonômicos, como a nomenclatura de espécies e o grego é matriarca de metade do patrimônio linguístico português e termos como eros, philos, sophia – qualquer semelhança é mera coincidência) em detrimento do idioma tupi. A consciência da "invasão" portuguesa à América do Sul e a consequente subversão de quase toda a variedade de cultura humana produzida até aquele momento, incute os revanchistas para a ressuscitação da cultura perdida. Não obstante, o efeito pode não ser o esperado, pois, hoje, o Brasil é falante do idioma português e os predecessores dos povos autóctones orgulham-se de sua cultura em meios digitais capitalistas, divulgam seus ritos, debatem e contam suas proezas em português, sendo que os interessados na língua ancestral aprendem lançando mão de grafemas fonéticos do alfabeto latino.
Há uma razão para tal. A literatura que homenageia os indígenas do passado é elogiável, afirmo por afirmar, porém a própria literatura foi um mérito dos colonizadores e o acervo literário indígenas foi elencado, conservado.e relembrado por meio de métodos oriundos da Europa. Tais encontros que marcaram e titubearam a história não podem ser categorizados com um mero antagonismo. Não há um agente positivo ou negativo, conquanto resida a vontade de vingança direcionada aos povos de ambição maior que a mão. O assassino em massa compõe um entidade de vários pequenos indivíduos a defender seus almejos e apenas é enojado quando notado (e apenas é notado porque o seu estrago é maior do que o de um simples humano inerte no leito de um rio). A morte é um experimento da vida e o assassinato é experimento da morte. Entrevendo os feitos passados com frieza, sem as veias que levam ao coração, tudo corroborou para a mescla de agora.
A lamentação dos laços é um alicerce para o paradoxo, porque o paradoxo é pensar sobre. Se não houvesse isso ocorrido, não haveria memória ou dignidade, não haveria futuro, não haveria quem pensar a respeito. A literatura é, dessa forma, um mérito luso-tupi. A essa relação de amor e ódio, coube uma resolução muito simples: um filho do tempo, um país com a riqueza concentrada no sono após uma tigela com a polpa cor de vinho do açaí e a leitura e admiração de Machado de Assis e Augustos dos Anjos. Relembras os antepassados potiguaras com o idioma português é de uma beleza inestimável e é hora de conciliar o que somos do que éramos e do que desejávamos ser, porque nenhum deles existe e todos coexistem. Somos o que a vida e a morte decidiram e que assim seja.
Cristian Lima

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