Jimmy Arso — Conto

Jimmy Arso — Conto

Era a sala de aula do sétimo ano do Colégio Luso-francês, na cidade do Porto. Um garoto de cabelo liso, vertendo até o pescoço, abriu a porta rangente e entrou. A professora, que estava sentada à mesa com um dúzia de papéis e uma caneta Bic nova em folha, levantou-se e recebeu o jovem, fleumático perante uma plateia que o observava com desdém, confortando seus ombros. A sua pele era pálida, desprovida de marcas ou cicatrizes.
— Turma, este é Jimmy Oliver Arso, nosso novo colega de classe. Deem as boas vindas a ele. — disse a professora.
— Bem vindo, Jimmy. — os alunos disseram em um uníssono.
— Jimmy. Não quer dizer alguma coisa? — a professora perguntou. Jimmy acenou que não de forma seca e, por seu próprio turno, dispôs-se a sentar na carteira, a terceira da fila, pois os nerds já haviam ocupado a primeira fila. Ele quase tropeçou arrancando gargalhadas involuntárias dos colegas. A professora preferiu aguardar o burburinho cessar por si só. Mesmo Jimmy não pareceu dar atenção ao tumulto. A professora aquiesceu e retornou à sua mesa para corrigir alguns exercícios. Na fileira ao lado, duas cadeiras atrás, Melissa o fitava com interesse. Ela era considerada, por opinião geral, uma das meninas mais lindas da sala. Havia menções sobre o seu senso de humor inabalável e a capacidade de contar bastante em poucas palavras. Jimmy acomodou sua mochila, justapondo-a no chão entre as pernas, com relativa proteção. Jimmy se assemelhava a um astro de Rock de 1960, incluindo o casaco amarronzado. Uma lâmpada acendeu na mente da menina e ela começou a arquitetar um plano. Nesse ponto, a professora erigiu-se e pegou o pincel para escrever. 
— Professora. — disse Melissa, levantando a mão. A professora se voltou para ela. — Posso ir ao banheiro?
— Sim, mas não demore. Esse conteúdo é muito importante para a prova, entendeu? — A menina concordou e enveredou-se pelo corredor até a porta. Parou a alguns centímetros da carteira de Jimmy. Ele estava cabisbaixo; ao se olhar mais de perto, descrevia um percurso com a caneta, desenhando um personagem de anime. Assim, ela executou uma tática multifacetada de sedução: apalpou-o nas costas e alisou-o em movimentos voluptuosos e afetuosos, em igual escala. Jimmy virou o rosto para ela com um olhar austero, mas Melissa fabricou uma imensa quantidade de convicção suficiente para retrucar aquele olhar enlaçando os dedos nos cabelo e umedecendo os lábios com malícia. Jimmy não conseguiu expressar sua inquietude de outra maneira que não permanecendo no mesmo lugar, estático. Olhou-a fixamente sair pela porta e fechá-la logo em seguida. Melissa ouviu um rangido e dobrou a esquina do corredor que levava para o banheiro.
Quando retornou, a sala estava em um bizarra quietude. A professora havia aplicado uma revisão valendo dois ponto para a prova final; ela a chamou e Melissa foi até ele e catou uma folha de papel das mãos ossudas e gélidas da velha docente. Sentou-se, abriu a sua mochila, pescou uma caneta e, logo depois, apoio a mão no braço da carteira. Deu uma olhadela para Jimmy, na expectativa de que ele denotasse algum sinal ou desconforto (ou, ao menos, olhasse para trás, indício de que haveria entendido o recado). Ela o fitou atentamente e perdeu por total a noção de tempo. Jimmy estava cabisbaixo como havia permanecido durante todo o momento em que esteve na sala, mas, naquele exato instante, como se o olhar de Melissa houvesse sido enviado por rádio-telepatia ou coisa assim, Jimmy a pressentiu. Ergueu paulatinamente o pescoço, olhando diretamente para o horizonte. Via-se que os músculos do pescoço estavam tensos e Jimmy olhou para ela de soslaio. Melissa sorriu. Jimmy, também, de maneiras possivelmente distintas.
O sino tocou e todos os estudantes entregaram as suas folhas e foram liberados para o almoço. Jimmy foi um dos últimos a entregar, junto de Melissa. Ele passou cadeira por cadeira até a mesa da professora. Melissa o seguiu, meio agitada, mas quando Jimmy olhou para ela, Melissa disfarçou olhando para o nada e passando a mão no cabelo. Ambos saíram juntos e, finalmente, alguém dos dois ousou ser o primeiro a proferir alguma palavra. Foi Jimmy:
— Seu nome é Melissa, estou certo?
— Como tu sabes?
— Em verdade, foi uma hipótese.
— Bom. Seja como for, é isto. Você é novo, então não vou perguntar se você sempre senta sozinho, embora você faça o tipo introvertido.
— Não é uma mentira completa.
— Eu adoraria me sentar com você.
— À vontade. — ele afirmou com leve sorriso. Ambos escolheram uma mesa do refeitório e sentaram um à frente do outro, onde desembrulharam seus vasilhas de marmitex. Jimmy abriu a tampa do seu vasilhame azul retangular. Havia arroz e feijão com bife acebolado. O de melissa era rosa. Ela o abriu e revelou um prato multicolorido contendo bacalhau com com arroz, feijão e legumes como tomate, cebola entre outros.
— Belo prato. — Jimmy comentou. Melissa riu de nervoso.
— Não conheço metade das coisas que tem nessa comida. Acredita?
—  Eu posso supor isso. — e começaram a comer.
— Tu és brasileiro, não é?
— Sim. Eu sei, que meu sotaque entrega.
— Sim. Bastante. Como vieste a estudar aqui?
— Eu já morava aqui há anos com a minha mãe no interior. Morávamos na casa do meu tio, que é agricultor.
— Compreendo. Tu não conheces quaisquer alunos daqui? — Melissa desistiu de usar o garfo e a faca e usou as mãos para encasar um bife do bacalhau na boca. Jimmy ponderou e pausou a sua colher por dois segundos. Estrebuchou.
— Eu já namorei uma menina dessa escola, mas nós terminamos. Éramos da mesma série na antiga escola, mas eu repeti de ano. Ela era meio neurótica.
— Qual era o nome dela?
— Adriana.
— Sinto por ti... Eu seria diferente. — ela afirmou, desvelando suas intenções e reclinou os o corpo sobre a mesa, complementando.
— Como assim? — ele sorriu. Pergunta esperta. Melissa fez uma expressão de medo que se assemelhava, em partes, com medo.
— Creio que deste a entender. Queres namorar-me, já que não ousas perguntar? — Melissa indagou. Jimmy travou. Sua mente guinchou e retornou aos trancos. No instante seguinte, cada termo dito constaria como um passo (para o céu ou para o inferno).
— Q-quero, sim. — Sorriu, por fim, livre como um golfinho. Melissa sorriu também. Em poucos minutos, a dupla parecia confortável na presença um do outro e havia adquirido certa intimidade.
— Então, tu colecionas plantas exóticas?
— Sim. — Jimmy respondeu. — Eu trouxe algumas... Sempre carrego comigo.
— Posso ver?
— Claro. — dito isso, retirou algumas mudas. Havia uma Flora de Portugal com as raízes cobertas por um plástico e pronta para ser transplantada, um Dragão-das-arribas (de nome científico Antirrjhinum lopesianum, Jimmy fez questão de mencionar) e um magnífico teixo. Melissa observou cada espécime com admiração, arregalando os olhos e sorrindo por pura satisfação. A cada exposição, Jimmy explicitava um conhecimento acerca de determinada planta e onde ela nasce. Melissa não compreendeu uma palavra, mas, ao término de tudo, ela se sacudiu na cadeira, maravilhada e disse:
— Você é incrível. — Jimmy sorriu e não comentou nada. Sua mochila estava quase leve, mas não totalmente. — Tem alguma outra planta? — ela perguntou.
— Não. São só essas. — ele disse, por fim, e começou a guardá-las. Nesse momento, o sinal tocou e os dois colocaram as mochilas e voltaram para as salas.
— Não compreendi por que razão trouxeste tua mochila. Trata-se do horário do almoço. Levas tua vasilha apenas. — Melissa comentou a caminho da sala.
— É o hábito. — Jimmy replicou, rindo.
— Vamos nos encontrar na hora da saída. Quero levar-te a um lugar.
— Para onde?
— Irás conhecer amigos meus. Aceita?
— Sim, é claro.
Dessa forma, a aula seguiu longamente e se estendeu o bastante para fazer dormir até os mais inteligentes da primeira fila. Perto das seis da tarde, os sino tocou novamente. Da saída da escola, uma multidão correu, apressada, com pernas ineptas, porém organizadamente quase como um ser vivo com múltiplas pernas com meias longas e brancas. Bem distantes, Jimmy e Melissa encontraram-se nos confins da escola, prontos para saírem. Dentro da escola, dialogaram e andaram de mãos juntas, para o agrado de Jimmy. Ele se manifestava intransigente quanto a sair para longe de casa.
— Então, aonde você vai me levar? — Jimmy estava de fato curioso, mas esboçava efetiva confiança a qual, até aquele presente momento, não havia exposto. Segurava uma garrafa na mão.
— Iremos comer alguma coisa, que tal? Eu conheço um atalho por aqui. Venha. — ela o pressionou tomou a dianteira.
— Parece ótimo, mas creio que não será possível. — ele afirmou empinando o queixo e rindo com repentina arrogância.
— Por quê? — Melissa indagou próximo à porta. — Mamãe não deixa?^
— Eu não disse que eu não poderia ir.  ele disse. Tomou um gole da garrafa e, em seguida, beijou Melissa. Ashley se viu entre nuvens de dedos flutuantes e a profundidade de sua íris ficou aparente. Seu coração palpitou. Melissa o olhou de perfil e tentou se desvencilhar, mas a sua face era inocultável e ela não pôde resistir. Ashley vislumbrou naquele beijo um misto de sensações conspiradoras. Contemplou sua vulnerabilidade e ignorou a apreensão e o zelo por alguns segundos. Sentiu-se ser abraçada e tocada, os braços compridos de Jimmy se delongando em seus pequenos seios. Seus pelos se eriçaram e eles trocaram líquidos. Seus braços desceram até a cintura e ela já estava completamente anestesiada. Jimmy parou lentamente e se afastou.
— Quem não vai poder ir é você— Nesse instante, Jimmy retirou da sua mochila um objeto coberto por um saco preto apenas nas raízes. As pétalas e o cálice eram brancos e a planta possuía um aspecto estranho.
Oenanthe crocata — ele mencionou. , conhecida por vocês como canafreicha. Mata em cerca de três horas. Pus na sua comida enquanto ia ao banheiro.
Melissa permaneceu calada e bastante confusa. Fitou-o espavorida — havia algo de fantasmagórico em seu tom de voz. Logo se deu conta de que o mal estar não fluía dele e começou a vomitar. Quanto prestou a devida atenção (não toda, pois a sua vista estava turva, percebeu que havia sangue em meio às excretas). Melissa ensaiou desmaio duas vezes antes de despencar de fato.
A pergunta — ele prosseguiu.  — que talvez você esteja se questionando... Por quê?

Melissa escutou um rangido e dobrou no corredor que conduzia ao banheiro feminino, a segunda porta. Jimmy seguiu-a andando calmamente. A menina caminhava sem que seu pés sequer a permitissem olhar para trás para ver. Melissa entrou no banheiro. Havia cinco banheiros e uma três pias grande sob um espelho panorâmico. Melissa adentrou uma das portas brancas e girou fechadura prateada em forma de bulbo. A porta não cobria tudo até o chão e permitia que uma fresta retangular de luz entrasse. Melissa abaixou a calça e a calcinha e sentou-se no vaso sanitário. De repente, duas sombras equivalentes a pés ofuscaram a luz. Foi algo tanto quanto natural para ela, no entanto os dois pés permaneceram onde estava, precisamente em frente à sua porta. Melissa decidiu que algo deveria ser feito.
— Que se passa aí? — ela perguntou, mas houve silêncio. — Oi? — Ninguém respondeu. Melissa levantou-se com mais velocidade do que gostaria e abriu a porta.
— Porra, Adriana. — disse para a menina do oitavo ano que se jogou sobre a pia se maquiar. — Tu me assustaste. Pensei que houvesse alguém aqui.
— Você é tão covarde. E aí, querida? — respondeu a menina. — Como estamos?
— Nada demais. — disse Melissa enquanto lavava as mãos. — Já viu o garoto novo. Ele é estranho. Engraçadinho, eu diria, até bonito. Acho que dei mole para ele.
— Rum. — Adriana resmungou. — Qual o nome dele.
— Jimmy. — Adriana parou automaticamente e olhou para ela.
— Jimmy Oliver Arso?
— Sim. Como tu sabes?
— É o idiota do meu ex. Ele era bizarro e terrivelmente chato. Traí ele com um cara da faculdade.
— Nossa.
— Amigas não ficam com ex da outra.
— Não, não mesmo. Acho que ele caiu na minha. Se ele vier perguntar, eu o espanto.
— Não, espera. Não faz isso.
— Por quê, não.
— Eu tive uma ideia. — ela sussurrou e ambos sorriram em sigilo interno. — Tu vais pedi-lo em namoro e então arquitetamos um emboscada onde possamos jogá-lo em alguma poça de lama. — essa menina riu, e seu riso contagiou Melissa.
— Acho uma ótima ideia. — achava mesmo. Deliciou-se com esse pensamento sádico. Melissa saiu muito feliz e rindo. Quando abriu a porta, a pessoa atrás dela já havia desaparecido.

Jimmy caminhou ostensivamente até ela. Ela estava vulnerável a chutes e quaisquer demonstrações de violência com a qual Jimmy adoraria aplicar, mas ele se mostrou pavorosamente gentil (não havia mais necessidade de outros meios que não os já estabelecidos). A pela da menina estava pálida e a saliva espumosa era expelida.
— A propósito — ele disse, sacudindo sua garrafa. — É toxina botulínica, encontrada em variedades na mandioca. Algumas microgramas são suficientes para matal. Foi um toque final, caso a primeira falhasse. É uma lembrança do Brasil que eu não poderia esquecer.
Então, o celular de Melissa começou a tocar. Melissa empenhou-se para apanhá-la na mochila, mas estava combalida demais para isso. Jimmy abriu o zíper e pegou o celular.
— Alô. — disse uma voz feminina. Jimmy abriu um sorriso tão largo quando suas duas orelhas.
— Oi, amorzinho. — disse Jimmy, delicadamente. — Esqueci de lhe contar duas coisas. A primeira é que recebi o resultado de um exame na semana passada. Parece que somos companheiros soro positivos. A segunda é "Vai se foder".



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