O Conto de Jacyema — Cristian Lima

O Conto de Jacyema — Cristian Lima


Como um reflexo, eles se esquivaram do ar. Não foi uma atitude cômica pois ambos se entreviram com um olhar grave, e acocorados detrás de um Cedro Rosa escarafuncharam tacitamente, ocultos pela mata. Nas lacunas entre as folhagens, poder-se-ia ver somente o contorno negro de olhares famintos, com uma listra vermelha de pasta de urucum. Esse traço e o canto externo dos olhos apontados para cima concedia-lhes um aspecto de astúcia voraz. A cachopa de mechas pretas escorridas, desembrulhou-se das folhagens e se exaltou. Infligiu um pancada de fúria no tronco de uma das árvores e ouviu o som ecoar pela floresta com um pouco mais do que ressentimento. O irmão a fitou com censura.
— Aquiete-se. Você quer que ela perceba nossa presença? — disse ele, com os músculos tensos. A garota bufou para si mesma, em seguida gemeu de dor. Conquistou dois arranhões na barriga graças àquilo. — Isso jamais teria acontecido se você não houvesse perdido o seu arco. 
— Não me culpe. O seu está quebrado. 
— Quebrado não significa perdido. — respondeu ele. Ela pensou que talvez fosse verdade. — Nós precisamos trazer algo para a tribo. — depois disso, os dois permaneceram próximos de tocaia e suas peles se tocaram. Então que o macho mais velho tomou a dianteira e adentrou por entre a mata. Estavam caminhando próximo ao Lago Proibido. Jacyema e Turi o chamavam de Lago das Onças. As árvores recobriam-nos de parte da luz solar, mas algo dela ainda trespassava as folhas deixando piscadelas de luz, que a jovem não se esqueceu de admirar. Tomou um susto ao não ver seu irmão na mata mais à frente, não por medo de se perder, conhecia o caminho de volta para sua tribo, mas, se chegasse a seu lar sem estar junto de seu irmão, seria punida severamente por não se manter zelosa. Atravessou a floresta, e não o encontrou pelo caminho. Estava à beira de gritar, ato que seria sua perdição. Seu coração bateu mais forte e o grito já estava galgando pela sua garganta. Ela caminhou um pouco mais, quando ouviu um farfalhar oriundo da sua direita, as folhas sacudiram como se fosse arregaçadas por algo (era ela, só podia ser). A jovem ergueu a lança de madeira que levava, direcionado para a moita a extremidade pontiaguda. Logo em seguida, escutou a voz conhecida e viu seu irmão gritar:
— Jacyema! — esse era seu nome. — Esconda-se! Ela está vindo. — a índia recobrou a consciência de supetão e arrancaram velozmente, agora anunciando sua presença para qualquer um que quisesse ouvir; mas agora havia outros passos rasgando a floresta, alardeando-se com mais vigor e orgulhos que os seus passos de medo nas raízes das samambaias. Turi atravessou com um salto uma voçoroca que havia no meio da passagem e rolou do outro lado, deixando sua lança voar para longe. Logo depois, ele se levantou foi até a borda. Gritou para a caçula, mas Jacyema estava atenta à movimentação atrás, tão amedrontada que só viu o pequeno despenhadeiro quando já estava perto demais e só conseguiu um meio salto com baixíssimo impulso e quase despencou, agarrou-se à borda do abismo e se chacoalhou, dependurada.
— Fique quieta. Eu vou ajudar você. — o irmão gritou, dando-lhe a mão. Mas os seus olhos ficaram vidrados com o que surgiu do outro lado. Do interior dos troncos grossos, a densa folhagem, emergiu Yaguareté, a criatura pintada. Ela rosnou para eles e pareceu se satisfazer com seu medo, rosnou para eles. Turi olhou dentro dos olhos dela e começou a se mexer lentamente. Fez menção de segurar lança da irmã com cautela. A distância que os separava era de dois metros, mas não iria pará-la. O irmão conseguiu envolver a lança com a palma das mãos, mas Jacyema prendeu-a com força.
— N-não, Turi. Me ajuda. — ela implorou. Turi esgueirou-se para alcançar sua mão e puxou rapidamente. Um milésimo de segundo depois e a criatura os teria agarrado com as garras ferozes. Os dois embrenharam-se novamente. A onça agarrou-se à beirada do precipício com firmeza e, forçadamente, escalou o solo.
— Suba na árvore. Vamos acertá-la com as lanças. — O irmão ordenou também escalando. Jacyema trepou no tronco da árvore e repulou desengonçada tentando alcançar o galho superior. Viu Turi em cima do galho, berrando para ela e, de repente, no meio do percurso, atirou-se direto para o galho e seus dedinhos passaram a centímetros do galho. Turi não conseguiu agarrá-la a tempo. Jacyema despencou com um choque abafado pelas folhagens mortas cor de palha.
— Não! — o irmão gritou, em desespero. Ele nunca se poria em paz se a visse morrer como vira seus pais. Ele deveria protegê-la, mas quando propôs ao seu corpo sair do lugar, um arrepio verteu-lhe a espinha. Ouviu o som da morte e pôde ver a distância o que se aproximava. Não ousou descer. Jacyema se alevantou e sinalizou com olhos, como se a houvesse inevitabilidade naquele momento. Aquela onça era a maior já vista por aquelas bandas e pesava cerca de cento e cinquenta quilos. A criatura avançou nela, empurrando Jacyema dois metros para trás. Com sua bocarra imensa, ela seria capaz de abocanhar sua face por completo, poderia morder-lhe os membros e arrancar-lhes, mas ela pulou por cima dela e suas patas dianteiras cravaram no chão entre a sua cabeça; ela se preparou para o bote, quase Jacyema impôs sua lança sob ela e a monstra só conseguiu romper um cabo de madeira e lançá-lo para longe. Agora era a vez de sua cabeça. Jacyema cerrou os olhos. Era isso, não havia outro modo. Ela iria matá-la ali mesmo com aquelas presas enormes. Então a onça imprimiu sua fúria e... Nada aconteceu. Jacyema abriu os olhos e o corpo inepto da onça caiu por sobre ela. No seu dorso, havia uma lança encravada. De pé, seu irmão, com um sorriso triunfante, empurrou o corpanzil da Jaguarapinima, tirando o peso de cima de Jacyema, que conseguiu respirar aliviada. Ela estava com o sangue quente, e não sentiu fluir de sua ferida na perna, quando foi arrastada por cima de um galho pontudo. A ferida começou a melar o chão com gotículas avermelhadas. Ela sentiu dor, mas ficara tão perto de se unir aos espíritos da floresta que aquilo parecia insignificante. Não foi capaz de mover as pernas; em vez disso, pediu ajuda para Turi e estendeu a mão. O irmão mais velho desviou o olhar e se agachou perto da onça, encarando sua boca escancarada, inerte.
— Ajuda a levar isso para aldeia. — ele decretou friamente, ajudando-a a se erguer.
Pela tarde, ouvia-se, em um insignificante ponto da mata, encontros regulares de plantas dos pés com as folhas decaídas crepitantes — e a floresta falava com eles, esboçando sua imponência apenas com o abanar de uma folha longa. Uma arara passou voando e chilreando. Era um cantarolar tão frágil que de qualquer lugar mais longe que cinco metros não haveria de ouvir — mas ouviria outras das milhares de aves da floresta, nem todas conhecidas. Os irmãos encontraram seu lugar recôndito mais à frente e atravessaram novamente. Avistou pequenos montes beges — eram moradas de madeira, ocas construídas com a réstia de vida que a Mãe-terra oferecera. Ela possuíam formatos diversos, mas grande parte das residências era mais ou menos arredondada, com a cobertura de palha das folhas de palmeira e uma estrutura feita troncos das árvores altas e galhos de taquara. Havia centenas delas em um pequeno vale no meio da floresta. Jacyema perpassou os seus conterrâneos, um deles carregou um apinhado de troncos da espessura de seus dois braços nos ombros e lançou no chão onde uma tuba de artesão começou a moldá-los. Ela viu Abati, uma amiga de infância sendo pintada. Trajavam somente a própria pele — o deus Tupã concedera a sol, o qual aquecia suas terras e acariciava suas peles protegidas. Abati olhou para ela, e todos os outros se aproximaram dos dois que quase arrastavam a onça no chão para casa.
Turi e Jacyema caminharam até a maior das ocas, o templo do pajé Uacari, o único vidente capaz de dialogar com os espíritos e o único habilitado e barganhar uma trégua ou uma guerra. Ele mostrou-se a palma de sua mão e ambos pararam em frente. O pajé chegou perto deles ergueu os braços.
— Farol alto e Nascer da Lua trouxeram para nós o alimento para a noite. A Mãe-terra nos abençoa com a proteção de nossos inimigos. Que agradeçamos sua temporada de paz e a bondade dos deuses alimentando-nos de seu presente. — ele concluiu solenemente incutindo o início da celebração.
Jacyema ficou arredia durante as danças, mas seguiu com inércia e se retirou um pouco antes. Na noite escura, estava em sua oca, quando Abati se aproximou e chamou-a para fora. Ela possuía os mesmos cabelos, mas os olhos menos astutos e ternos. A menina-dos-olhos negra como carvão. As duas sentaram-se uma ao lado da outra.
— Você não está bem. — Abati falou. Algo atravancou sua fala e fê-la olhar estupidamente para o ferimento na sua perna, com tristeza.
— Iracema passou pasta de babosa. — ela comentou. — Turi me disse que não sou uma boa caçadora. É verdade. Se ele não estivesse lá junto de mim, estaria morta. — Abati não soube o que comentar.
— Lamento que se sinta assim. Todos possuem seu dia. Você sabe. — um silêncio e um longo suspiro depois:— Eu vim contar para você algo que eu soube.
— O quê?
— É um boato, mas dizem que o pajé teve um sonho na noite passada, uma revelação de uma grande ameaça que se aproxima. Acredita-se que os outros irão invadir nossa terra e matar todos nós.
— Impossível. Os deuses nos protegem. Eles nos ocultam na floresta.
— Dizem que eles já nos descobriram. Estão apenas aguardando o melhor ensejo.
— Então, precisamos atacá-los primeiro. Impedir seu ataque com um outro ataque.
— Ainda não. O pajé acredita que os deuses irão nos alertar quando for para atacar. Do contrário, não haverá paz por mais mil anos.
— Como você sabe de tudo isso?
— Minha mãe me contou. — ela sorriu. — Não quero que nada aconteça conosco. Você foi minha única amiga desde sempre.
— Abati. O que realmente você veio me contar?
— Eu vou fugir e quero que você fuja junto. — sua voz contaminava com medo, mas Jacyema apenas franziu o cenho e observou a palha que recobria a oca onde o seu irmão dormia pesadamente.
— Não posso. Já sou considerada covarde e fraca. Nem Jaci nem Tupã me perdoarão se eu fugir. Nem Turi vai me perdoar. — disse Jacyema. Abati suspirou e olhou para a floresta, como se chamasse por ela.
— O que você pode fazer? Nada. Todos se unirão à floresta. — Abati fez uma expressão contrariada. Jacyema olhou para lua cheia e um novo tipo de olhar surgiu de seu cerne, como a iluminação oriunda da esfera branca no céu.
— Eu vou caçar a maior onça de todas e oferecer a Tupã.
— Você acredita que ele irá ouvir?
— Sou o Nascer da Lua. Esta é a ocasião perfeita. Jaci me protegeu da morte hoje e me protegerá novamente. — e ela ergueu triunfante.
— Nesse caso — disse Abati, levando-se junto. —, boa sorte. Isso é uma adeus. — Jacyema suspirou deprimente e alisou o longo cabelo de abati. Abati retrucou acariciando a maçã do rosto de Jacyema.
— Volte quando puder. Por favor. — disse Jacyema com um sorriso no rosto. Desse modo, ambas se separaram.
Jacyema esperou o instante em que toda a tribo estava dormindo e apanhou uma lança e um arco e flecha que encontrou próximo ao corpo sonurno de Araré, um dos maiores guerreiros da tribo, e adentrou a mata avidamente, ainda mais aterrorizante durante a noite e se moveu silenciosamente tentando policiar as próprias ações. Era como se imaginasse o que os passos de seu irmão atrás dos seus e como seria ralhada se não seguisse com o curso da caça.
Depois de alguns minutos, alcançou a imediações do Lago das Onças, o recanto. Apalpou a árvore serena e se deparou com um visão inesperada. Era ela. Era mãe onça dormitando com seus filhotes, a postos como pequenos gatos. A giganta se moveu em sonho alguns micrômetros e Jacyema gelou, paralisada. A onça retornou ao seu sono. Logo que o perigo passou, ela começou a dar pisadas tão leves quanto às das formigas gigantes que competiam por espaço. Pegou seu arco dependurado nas suas costas, uma flecha e mirou na onça ainda a alguns metros dela. Aguardo o momento certo e atirou. A flecha cravou ao lado da cabeça da onça, e a flecha permaneceu em pé. A onça despertou com seus olhos negros para ela. Jacyema, com certeza, havia invadido seu território, e não fora pouco. A onça se levantou mais rápido do que qualquer humano e Jacyema arrancou mata adentro. Correu, titubeante, indo de lado a outro abrindo caminho pelas árvores grossas, aparando os cipós e as moitas com o próprio corpo. Um dos galhos atingiu-a na barriga e Jacyema sentiu uma pontada de dor, mas não poderia parar. A onça se aproximava cada vez mais. Não havia como se ver livre da predadora da Mãe-terra. Jacyema caiu ao tropeçar, em um galho raso e grosso, e conseguiu rolar e continuar, mas reduziu a distância para a morte. A onça se chocou com o galho e despedaçou-o na hora. A jovem entreviu àquilo com pavor e continuou até a área mais longínqua que já havia ido, e parou. Havia algumas restingas na costa onde estava, e o restante era apenas água. O horizonte não estava ao alcance de seus olhos. Não havia nada senão um longo oceano azul, sem terra, sem ilhas. Poderia nadar para longe, mas quando se deu conta, já havia hesitado. Ouviu apenas um rugido forte vindo de trás e virou de costas com um reflexo. A onça saltou para cima dela (seu tamanho em pé alcançou dois metros, envolvendo-a com uma terrível aura indestrutível). Então, ela caiu por sobre ela.
Novamente, o ar continuou respirável e a noite ainda enviava um frescor agradável, mas, acima de tudo, Jacyema estava viva. Assim que se apercebeu, viu a lua lança cravada bem no coração da onça. Usando toda a sua força, foi capaz de virar o corpo massudo da onça e se levantar. Seu coração estava atormentado por uma face obscura. "Por quê?", ela pensou, "por que tem de ser assim?". Nesse momento, em um litoral recôndito, sob a luz da lua, Jacyema sentou-se e começou a chorar. As suas lágrimas eram como a chuva que nas áreas desmatadas, lavavam o solo e transformavam-no em barro infértil.
— Olá. — uma voz proferiu. Jacyema se inquietou para olhar e vislumbrou uma menina com os cabelos ruivos e a pele morena. Jacyema chegou a pensar que eram feitos de fogo. Ainda que maravilhada, soube que se tratava de uma estranha.
— Quem é você, Cabelo de Fogo? — Jacyema inquiriu, perigosamente amalgamando-se à sua lança e flexionando os joelhos. A jovem com os cabelos largou a pedra do mar e, com um sorriso indesviável, de semblante santificado,  estendeu delicadamente o braço, ondulando seus dedos. Eram movimentos assertivos, mas inocentes, desprovidos de ameaça que pareciam dizer "estar tudo bem".
— Você pertence a essas terras, não é? — disse a forma, suavemente. Os lábios da indígena tremeram.
— Sim. — ela percebeu que deveria acrescentar algo. — Eu sou Jacyema, protegida da deusa Jaci, no nascer — ela sussurrou, de modo que lembrasse ao rugido de uma onça. — E você quem é?
— Eu me chamo Tury-pan. Você não precisa ter medo de mim. Eu não vim lhe fazer mal. — a menina disse, em tom apaziguador. Um sorriso de meia, sem expor os dentes. Era uma face inequívoca, invulnerável. Jacyema estremeceu, tão fraca se sentiu. Deveria morrer ali mesmo.
— Tury-pan — entremeou. —, o que você quer aqui?
— Sou uma mensageira de Tupã. Eu vim aqui repassar uma mensagem. — Jacyema imaginou se deveria confiar nas palavras daquela estranha tão estranhamente trajada e que estranha pele, que estranho jeito. Tão estranhamente diferente. Pensando bem, não seria assim os trejeitos de um deus? Aquiesceu.
— Prossiga. — a índia disse, um tanto incerta.
— Sua aldeia corre perigo. Uma ameaça, pior do que as onças, pior do que Jurupari. Esses não temem a Sukuyu'wera, o protetor das águas. Podem se transmutar e se dissimular como os espíritos da floresta. Surgirão como a própria morte. Você foi escolhida para salvaguardá-los.
— Do que você está falando?
— A verdade. Você deve retornar aqui amanhã. Prometa-me. — Jacyema empertigou-se diante de uma tamanha honra concedida. Ora essa, deveria expor uma maior responsabilidade.
— Devo avisar a tribo.
— Eles não confiarão nas suas palavras, não irão acreditam você. Você está sozinha, é sua predestinação. Você carece de coragem e deseja ser reconhecida pelo que você merece. — Jacyema se inquietou girando o corpo de um lado a outro da floresta.
— Como eu saberei o que eles são? — ela indagou com interesse, abaixando-se para ouvir a garota lhe contar. 
— Saberá. — esta afirmação foi deveras vaga e até Tury-pan assumiu. — Poderá reconhecê-los por três coisas. — fez uma pausa para ver se Jacyema estava atenta. Prosseguiu: — Eles trarão a arma do orgulha: com ela, você irá admirar para sempre a si mesmo; a arma do trabalho, parecerá útil e prática, mas é somente outra mentira; por fim, a arma da morte, que poderão usar para impedir os inimigos de invadir seu território. É uma dissimulação. Ela pedirão algo que parece justo, mas depois... Depois será o começo do fim.
— Se eu voltar aqui no dia de amanhã, o que eu deverei fazer? — Jacyema perguntou. Dessa vez, Tury-pan se distanciou e seus olhos se tornaram sinistros.
— Mate-os. Extermine-os.
— Eu não consigo. Não sou boa caçadora. Não trazer nem onça para aldeia.
— Não precisará matar todos. Aos outros, você dirá apenas algumas palavras. — Jacyema denotou um pico imenso de curiosidade e ousou perguntar:
— Quais?
Tury-pan começou a lhe contar. Ainda nessa madrugada, remigrou à sua aldeia e remoeu os pensamentos. Ponderou se, quando chegasse a oca, seria capaz de dormir e, para seu espanto, ao deitar na rede, teve os sonhos mais  aterradores e desanimadores, mas em todos, surgia sua protagonista para salvar o mundo do mal. Pela manhã, estava pronta para cumprir sua promessa e não esperou indagações nem ordens. Aquele era o seu instante de glória. Embrenhou-se na mata e repetiu o percurso da onça, passou pelo galho quebrado da samaumeira, a voçoroca e o pequeno riacho pedregoso até chegar às restingas. A areia branca do litoral inundava o dia com mais claridade e mais luz pastorou. Ela  foi honrada com isso e esperaria ali até a noite se pudesse (mas não necessitou nem de dois minutos).
Na amplidão do oceano, eles surgiram com seus arcabouços imensos. Era uma ameaça acima de qualquer imagem pré-concebida por Jacyema. Trevosas asas com um símbolo vermelho cruciforme (provavelmente seu símbolo de guerra). Foi após um longo período que seus transportes misteriosos pairaram longe da praia e um barco aproximou-se do litoral. Alguns homens vestidos com longos cabelos loiros e pelos no rosto, coberturas bizarras na cabeça e o mais distinto, sua pele era clara como a lua, tão brilhante que os cedia a honra dos deuses. Se Jacyema não conhecesse sua natureza, provavelmente se aliaria a eles. Havia indígenas na praia, homens de sua tribo caminhando e colhendo frutos das palmeiras, quando os avistaram de longe e se mobilizaram. Em segundos, havia um amontoada deles para a recepção daqueles visitantes de outro mundo.
Os demônios brancos, entregaram aos indígenas, que apresentaram um tanto esquivos um objeto prateado com uma lâmina análoga a um portal onde eles podiam ver o próprio rosto, ato que era monopólio dos igarapés pacíficos, quando podia admirar-se na água — mas nunca houve tal perfeição como naquele objeto. Outro entregou-lhe uma uma faca de trinta centímetros, afiada, amarrada a um cabo de madeira e um terceiro, mais baixo, doou-lhes uma foice
Nesse ponto, Jacyema soube que deveria agir. Apanhou seu arco, aprumou a flecha, tensionou a corda trazendo-a até os seios, aquela deveria ser sua melhor  mira, ela pensou. Suou por seus poros e sua pela se eriçou e, por fim, soltou a corda.
A flecha foi através do ar e acertou a cabeça de um dos homens de pele branca, usando um largo chapéu. O sangue verteu de seu crânio, os seu compatriotas observaram àquilo traumatizados. Ele permaneceu por dois segundo com a boca entreaberta e o olhar vazio antes de despencar sobre a pequena embarcação. Em seguida,  Jacyema lançou outra flecha e conseguiu acertar o outro homem branco, que se abaixou para cuidar do colega ferido. Jacyema saiu uivando com uma voz esganiçada e aguda. Alguns membros de sua tribo trancaram a cara e ameaçaram avançar sobre ela, porém ela se colocou de guarda entre eles e os mortos. Com a postura curvada, afrontou de supetão para espantá-los.
— Fiquem longe vocês! — ela berrou apontando sua lança para cada um deles. Ela se voltou para o único sobrevivente, que possuía uma pena e um tinteiro nas mãos, além de uma pequena folha de papel, agora enodoada de sangue. Ele estava boquiaberto e tremia de horror. Os outros aborígenes fitaram Jacyema com olhares pasmos, indispostos a evitar o que quer que ela estivesse fazendo.
— Atente-se ao que eu vou falar. — ela bradou ao ferido. — Avise ao seu líder que esse não é as Índias que procura nem mesmo o paraíso. Aqui onde vocês chegaram é o inferno.

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