Estar Enamorado — Conto Danilo Soares

Estar Enamorado — Conto Danilo Soares

Iubî falecera há pelo menos um mês e Danilo ainda não havia superado sua perda. Mas havia algo mais que eu, em minha ignorância, não havia notado. Quem o visse, à primeira vista, surpreender-se-ia ao ver como era esbelto, porém eu me tendo um hórrido equívoco, ao analisá-lo sob a ótica estética. Eu o havia visitado inúmeras vezes antes para discutirmos poesia, no entanto este era um caso à parte, em que Danilo, de fato, expressava aflição. Quando ele se voltou bruscamente, fumando, senti a desolação por trás de seu largo sorriso e este me me a pergunta pela qual eu havia vindo. Danilo conversou com seu outro pássaro que levava em seu ombro.
— Aquele poema erótico nosso ficou foda, não ficou? — ele comentou.
— Sim.  Uma amiga, inclusive, comentou sobre o seu trecho. Afirmou que os dois poemas se encasaram com perfeição.
— Tu me falaste. Era a... Esqueci o nome. Ela sempre comentava no meu stories, igual à tua ex. — detectei a indireta ainda no ar, mas era apenas Danilo sendo Danilo.
— Rum. — resmunguei. — Você é um espécime irritante. Alguém já lhe disse isso? — nós rimos. Depois de um tempo, prossegui: — Fazia um ano que eu não me dedicava e escrever um assim.
— E aquele poema lá, ô Cristian. — ele deu um risinho. — Eu pensando que era havia alguma mensagem subliminar. Nada. Era só o Cristian colocando asneira. —, mas havia algo de esmorecedor em seus comentários, nuances que somente um amigo poderia notar. Um cunho que se nota em um ermitão. Eu havia percebido esta expressão cedo, quando ele me ligou por videochamada.
— Está triste por causa do Iubî?
— O que é o amor? — Danilo indagou, ignorando-me.
— Bem. Já que perguntou, é quando a outra metade aceita suas falhas em virtude de suas qualidades. Não há muitos amores de verdade, do contrário... — por um instante, devaneei, pensando em meu último amor: uma tentação por um segundo, uma lágrima por um século.  Bem, tudo seria diferente, acredito.
— Hum. — Danilo respondeu, incerto. Havia aguardado até as noves horas da manhã para que ele me contasse o que o aturdia. Era de seu hábito ligar-me em horas desapropriadas, de modo não intencional, lógico. Eu amava sua companhia, contudo considerava-o extremamente azarado por me encontrar apenas nas horas de atribulação. Ainda assim, nós tínhamos tempo o bastante para nossas preleções filosóficas. Os podcasts no blog foram as marcas que trouxeram novo leitores à tona, como eu sabia que seria. Danilo era um gênio, poliglota. Que se danassem os vestibulares e os testes de matemática e química. Ele possuía dons em seus âmbitos e, quando cismado com algo, seguia sem desistir, algo que eu sempre admirei.
Danilo ainda estava sentado no sofá e eu pressenti seus últimos pensamentos, mas preferi dissimular.
— Por que você me chamou aqui? — eu disse, levantando-me e caminhando à esmo.  Sabe que eu me mudei para o Rio Tinto há uma semana. Não conheço cerca de... porra nenhuma da cidade.
— Amigo, porque eu não consigo namorar?
— Eu não sei. Talvez você seja feio. Já cogitou essa possibilidade? — perguntei a ele, rindo.
— Eu não te mostrei a tatuagem que eu fiz no rosto?
— Não. — eu disse.
— Tatuei um deus grego. — ele respondeu, com a mão apontando graciosamente para o próprio rosto.
— Você é generoso consigo mesmo.
— Namorar é uma palavra derivada do espanhol estar enamorado, estar no amor. E você ama somente a poesia.
— Eu não consigo encontrar alguém. As coisas nunca dão certo, tu me entendes. Tipo, os meus casos com as minas são muito... do momento. — senti que ele poderia ter usado a palavra efêmero. Ele amava termos dicionarizados; sempre alardeava novas palavras em nossos poemas conjuntos. — Eu não consigo encontrar alguém a qual possa amar de verdade.
— É. Eu imaginei. O amor é uma situação em que você confronta você mesmo. Ou você se fode ou você fode. — eu não segurei o riso. — Esse é o pior trocadilho que eu já fiz por hoje. Eu tenho que me sentar. — e me sentei ao seu lado em uma poltrona qualquer.
— Como lidar com isso? — ele me perguntou. Decerto, eu não era o ser humano mais adequado para responder isso. Eu pensei em respondê-lo que desconhecia a resposta exata, mas decidi executar uma mudança súbita no assunto.
— Que tal você me contar sobre os seus casos com as garotas? — eu parei um pouco para ponderar as próximas palavras.  E quanto à "Felih". — fiz duas aspas com os indicadores, pois era tudo que eu conhecia de seu nome, graças a um print. — Ela não era uma mulher interessante?
— Acho que não. Talvez fosse só para dá uns pega, tá ligado?
— É claro. Em seu coração há somente espaço para poesia. — eu ri, com a cumplicidade masculina. — Olha. Isto pode ser a chave. Não tem alguma amiga com a qual você sinta algum tipo de identificação.
— Sei lá. Tem muita gente com quem eu converso. Gente da aldeia, do E.C.I.T., pessoas aleatórias lá da página. Nunca conheci alguém interessante. Talvez o amor não seja algo para mim.
— O amor é sempre algo para alguém, ainda que seja um idiota. — Danilo me olhou, mas eu sinceramente não notei o insulto mal-colocado. — Não... Não que você seja, mas... Porra, me dá uma tragada. Quero ver se é bom. — arranquei o cachimbo de sua mão e inspirei a fumaça pela boca. Empecilhei a tosse com uma onda de pigarros e consegui sentir o gozo de fumante na primeira tragada, o que era sempre um júbilo para mim. Meu primeiro beijo e iniciação sexual, diferente de muitos, não foi algo desagradável (para ambos os lados. Imaginei que para o Danilo era a mesma coisa.
— Diga-me, meu amigo. A minha amiga, que o chamou no stories. Eu acredito que você se dariam bem. Ela lê Augustos dos Anjos.
— Ela me contou. — disse Danilo. — Na verdade, ela é foda, tá ligado? Se ela desse bola para mim e se não morasse tão longe, ela seria a garota.
— É. — eu disse, em pura desistência. Levantei-me no intento de voltar para casa, que ficava mais perto que minha cidade natal, mas mais longe que um quilômetro. — Talvez o amor não seja para você. Me deixa até a porta.
Danilo acompanhou-me até a porta, mas antes eu fui ao banheiro. Quando retornei, tomei a dianteira e abri a porta.
— Oh. Você está aí. — eu disse para a figura de cabelos castanhos vertendo até o ombros, os olhos fundos e a magreza apenas equiparada à de Danilo. Ele a reconheceu como a garota que comentou meu stories.
— Oiiii.
— Quem é, mano. — perguntou Danilo. Eu me virei para ele com um sorriso, permitindo que a garota entrasse e o cumprimentasse. Ele permaneceu sem compreender.
— Bem, ela veio nos visitar aqui. Hoje, cedo, ela me contou o quanto gostava de você. Eu disse a ela que Danilo Soares não namorava virtualmente. Ah... — pensei. — Lembra-se do que eu disse, mais cedo? Que em sua vida há somente espaço para a poesia?
— Sim. — ele respondeu. Afastei, dando sinal para que a garota falasse.
— Meu nome é poesia.

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