Conto: A Terra e Semente — Cristian Lima

Conto: A Terra e Semente — Cristian Lima


A TERRA E A SEMENTE

Era um parco terreno, como solo humificado e virgem, espraiando-se por cinco metros quadrados, ao lado terreno baldio, no qual os infantes brincavam. Dois meninos eram uma companhia assídua; eram os mais enérgicos os mais interessantes. Na impossibilidade de se esgueirar para assistir ao jogo, a terra os escutava com júbilo e interesse. “Cale a boca pivete, você trapaceou”. Se risse — porém não ria — era apenas uma terra preta nutrida da morte, sem jamais dar luz à vida. Os garotos jogavam bola durante os dias e as tardes, competiam, discutiam e, vez por outra, brigavam. E um, como de praxe, sempre era acossado pelo outro. “Tu vai levar um soco, tampinha. Sai daqui, seu merda”. A solidão do solo era sempre era entremeada por visitas pontuais; o mais jovem dos meninos, pequeno e franzino, era, do mesmo modo, alegre e sorridente e se deitava no campo quando a mãe saía — e abraçava a terra. Tão por partilhar da solidão, em geral conversava consigo mesmo na companhia da terra. O mais velho, esguio e alto, com os músculos do peitoral à mostra, dádivas de um árduo trabalho no campo, sempre fazia movimentos grotescos, necessariamente viris e orgulhosos, com guinadas bruscas e ameaçadoras. Nunca abraçou a terra. Esta era uma terra esclarecida, conhecia bem os outros cantos do mundo, conquanto arraigada no seu próprio; vira jardins de eucalipto, rosas, orquídeas, margaridas, uma profusão de flora colorida intensamente penetrante, a qual tão bem incutiu a uma excedente inveja. Em um noite, com uma significante parcela de temor e receio, a terra, que não podia ajoelhar-se — tanto quanto dessabia qual forma tomaria a sua prece nem para qual entidade cósmica remetê-la — pairou em sua genuflexão imaginária e implorou para que uma semente caísse em seus limites e a fertilizasse, então a planta mais bela, fosse qual fosse, nasceria e seria amada. No outro dia, o mais alto transpunha duas cestas com sementes miúdas de uma planta que não se poderia afirmar o nome. Uma menina, sua vizinha de porta, com as curvas da maturidade veladas pelos trapos que usava no trabalho, passou ao seu lado, absorta com galões de leite titubeando na sua cabeça, que já vacilava de estafa. ao lado do pequeno canto de terra. Ele, em um dos seus movimentos arrogantes para, embalde, demonstrar sua força, ergueu a cesta e arrojou uma das sementes para o alto até cair de novo sobre a terra. Seguiu seu caminho. Com todo o sabor e a gratidão que lhe eram inerentes, a terra abraçou o pequeno grão e deixou-se estar com uma nova materna paixão. Na semana seguinte, o menino franzino veio novamente visitar a terra e deparou-se com um pequeno broto de uma flor azulada, que nascia viçosa e encantadora. O menino saltitou e pulou de alegria. “Uma flor!, uma flor!, uma flor!”, cantarolou. A terra sentiu enrubescer-se, encabulada, mas percebeu que sua cor já era rubra naturalmente. Nos dias que sucederam, o pequeno fugia todos os dias com o regador abanando gotículas de água quando corria, para cuidar do pequeno rebento, que crescera mais depois de um mês. Estava esfuziante. Nunca imaginara-se cuidar de tão bela flor. Regava com zelo e satisfação. Nas madrugadas, a terra observava transcorrer as fases da lua enquanto a planta fincava suas raízes em seu âmago e sorvia a sua linfa nutritiva e a sugava. Ébria de seu amor e entorpecida pelo presente concedido, não demarcou limites e foi dominada pela planta parasita. O pequeno, não o via mais brincar ou jogar bola com os infantes no campinho, pois passava horas a fio sentado na terra a dialogar com a pequena flor. Isso a fazia deleitar-se, derreter em lama de regozijo. A terra era agora a mais feliz de todas com seu jardim de uma única flor. Dentro em pouco, as pétalas azuladas nasceram e a plantinha firmou-se presunçosa em seu recanto plácido e inóspito, um deserto avermelhado para sua pequenez. Assim se fizera também a vontade da flor, cuja fome combalia a terra e procedia virulentamente à solidão. O pequeno agora a admirava docemente e refestelava-se na terra para abraçar seu pedúnculo, muito embora desejasse haver mais amigas para sua nova cria; não fossem semeadas por um simples acidente, de um pai que sequer prestasse um olhar à sua cria. O menino-forte, que se insinuava para as jovens da rua, e conseguia somente os véus de um verdadeiro amor. Tão indolente e indiferente que não era fácil crer que fizera nascer tão bela flor. Dessarte, o jovem garoto experimentou plantar novas sementes, do pólen das flores que escolhera a dedo, as melhores, as mais raras — as que mais amava e aterrou-as no solo. Ciosa, com seu egoísmo inveterado, a flor mobilizou suas raízes e penetrou-se mais fundo, com viço implacável e sedento, e sugou os sais que aleitavam as irmãs, impedindo que florescessem. A terra aquiesceu por cego amor, sem perceber quão tardio era, pois a sua inveja sugara todo a fertilidade da terra, que agora não supria mais a si mesmo nem aos outros. No dia seguinte, o pequeno encontrou a flor tão bela morta. O solo morto. E nunca mais naquele canto nascera nem uma pétala de flor.

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