5 Sonetos bonitos de Augusto dos Anjos

5 Sonetos bonitos de Augusto dos Anjos

 Muitos acreditam que Augusto dos Anjos somente escrevera sonetos melancólicos, fúnebres, escuros... falando de podridão, pus, mas o poeta paraibano também se aventurou em escrever belos sonetos. Aqui listaremos alguns dos sonetos pulquérrimos dele. 

 

Última Visio


Quando o homem resgatado da cegueira
Vir Deus num simples grão de argila errante,
Terá nascido nesse mesmo instante
A mineralogia derradeira!

A impérvia escuridão obnubilante
Há de cessar! Em sua glória inteira
Deus resplandecerá dentro da poeira
Como um gasofiláceo de diamante!

Nessa última visão já subterrânea,
Um movimento universal de insânia
Arrancará da insciência o homem precito...

A Verdade virá das pedras mortas
E o homem compreenderá todas as portas
Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! 

 

Vandalismo

Meu coração  tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longíquas datas,
Onde um  nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lutrais  irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como  os  velhos  Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos  e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a  imagem dos  meus próprios sonhos!

 

Soneto Esplêndido

Canta teu riso esplêndido sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
- Citara suave dos apaixonados,
Sonorizando os sonhos já passados,
Cantando sempre em trínula volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos,
Quando, úmido de beijos em ressábios
Teu riso esponta, despertando sonhos...

Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minha alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!

Noivado


Os namorados ternos suspiravam,
Quando há de ser o venturoso dia?!
Quando há de ser?! O noivo então dizia
E a noiva e ambos d'amores s'embriagavam.

E a mesma frase o noivo repetia;
Fora no campo pássaros trinavam.
Quando há de ser?! E os pássaros falavam,
Há de chegar, a brisa respondia.

Vinha rompendo a aurora majestosa,
Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo
E a luz do sol vibrava esplendorosa.

Chegara enfim o dia desejado,
Ambos unidos, soluçara um beijo,
Era o supremo beijo de noivado! 


Soneto

"Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior, pelo término dos seus estudos neste ano, em troféu de homenagem ao grande aproveitamento que deles soube tirar;
a aplicação será sempre a “alma mater” da inteligência humana, e o caminho
mais perfeito que nos pode levar à tortuosa via da Ciência."
 
Ergue, criança, a fronte condorina
Que é tua fronte, oh!, genial criança,
É como a estrela-d’alva da esperança,
Do talento sagrado que a ilumina!

Ergue-a, pois, e que, à auréola purpurina
Do Sol da Ciência, o rútilo tesouro
Do Estudo – o Grande Mestre – que te ensina,
Chova sobre ela suas gemas d’ouro!

E hoje que colhes um laurel bendito,
Aceita a saudação que num contrito
Fervor, eleva, qual penhor sincero

Um peito amigo a outro peito amigo,
A um gênio que desponta e que eu bendigo,
A um coração de irmão que tanto quero!

Engenho Pau d’Arco – 14 de dezembro de 1901. 
 
 

 
"Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta brasileiro, identificado muitas vezes como simbolista ou parnasiano. Todavia, muitos críticos, como o poeta Ferreira Gullar, preferem identificá-lo como pré-modernista, pois encontramos características nitidamente expressionistas em seus poemas."

Um comentário :

  1. Deve ter sido fácil escolher 5 sonetos belos de Augusto dos Anjos, afinal, todos são! Augusto é incrível! Parabéns pela bela seleção!

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