Os Jardins Cosmopolitas — Ashley Matias

Os Jardins Cosmopolitas — Ashley Matias


O texto que você está lendo é sobre amizade. Não, você não leu errado. Este é um livro de poesia, porém me esforcei ao máximo para ser agradável a quem ousar abrir as suas páginas. Muito prazer, meu nome é Ashley e eu quero ser a sua primeira amiga, alguém com a qual se possa dialogar sem rodeios. Desenrolar as palavras enquanto se dialoga com um amigo é sempre uma qualidade a ser levada em consideração. Eu me refiro à amizade a algo bem menos palpável, como a arte. Em primeiro lugar, desde que me conheço por gente, eu escrevo poemas para extravasar meus sentimentos, mas isso jamais me impediu de escrever meramente por achar bonito ou por agradar aos gostos de algum leitor. Quando se escreve há muito tempo para um público, o público começa a mandar em você (inconscientemente, admito). A arte não é uma mercadoria, no entanto esse não é ponto principal, mas a razão pela qual uma pessoa escreve.

No livro A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer, são descritos dois espécimes de escritores: os que escrevem unicamente por dinheiro e os que escrevem unicamente pelo amor à escrita, por gosto ou talento. Segundo ele, ainda, o autor que escreve para ganhar seu ordenado, em certo ponto, jamais poderia produzir um trabalho digno e de qualidade, ao mesmo tempo em que o autor que escreve por amor quase sempre conseguiria o título de livro atemporal, de modo que estaria marcado para sempre obra basilar, um clássico (e é preciso lembrar que o próprio Schopenhauer, que não era bem o que se podia chamar de popular em sua época, adquiriu esse título, consagrando-se como um dos maiores expoentes da filosofia alemã, o que nos induz a pensar que seu pensamento não estava somente à frente de seu tempo como prova, de forma prática, que ele sabia exatamente o que estava dizendo).

Existe um impasse entre o comercial e o autoral no que se refere à arte. Isso se mostra mais visível nas obras cinematográficas nas quais os filmes produzidos por grandes empresas e orçamentos exorbitantes têm a função unicamente de entreter durante o tempo de tela (normalmente entre 90 e 180 minutos) e, portanto, a visão do diretor ou do roteirista pouco importa, exceto até onde isso será lucrativo à empresa, o que também é bastante compreensível uma vez que o dinheiro será utilizado para continuar investindo em outros projetos, logo, o lado comercial é um mal necessário; por outro lado, isso tem o potencial para dissociar a arte do cinema.

Do mesmo modo, a literatura contemporânea encontra-se em uma grave crise. A liberdade artística que foi conquistada alguns anos antes com o os movimentos modernistas ofereceu aos escritores, pintores, músicos, poetas entre outros a oportunidade de inovar radicalmente em seus estilos indo dos versos livres até o nonsense e o dadaísmo, no entanto, aparentemente, o excesso de desregro alcançou o limite do quão radical se pode chegar. Não se pode desafiar mais os sentidos do que o sem sentido, de modo que uma porção de obras contemporâneas sempre possuem, em pequena ou maior parte, elementos de outras anteriores. Isto posto, a maioria dos livros publicados hoje são esforços fracassados de inovar em estilos já bem firmados e conhecidos. Toda arte é produto do seu tempo, porém existem aquelas além do seu tempo como também existem as que pertencem a todos os tempos.

No fim, o estilo ou movimento artístico que você escolher não apenas não interessa mais como antes, mas também é irrelevante. Há poucas maneiras de se abordar temas universais ou quotidianos de uma maneira totalmente diferente. É a regra do nada se cria, tudo se copia. Ainda que alguém ousasse explorar caminhos inimagináveis, não acho que isso surpreenderia ou impactasse tanto, pois, na minha opinião, o próprio ato de buscar o novo se tornou corriqueiro. Por ser vanguardista, um filme pode, sim, ter uma péssima recepção nas bilheterias, no entanto isso não impede que, mais tarde, entusiastas e críticos possam sair em defesa do filme e até mesmo convencer os estúdios a levar o projeto adiante. A globalização trouxe alguns benefícios para a liberdade de expressão.

Como é hábito meu jamais escolher um lado específico, mas buscar a síntese de ambos, acredito que exista um terceiro espécime de escritor, o qual não foi citado por Schopenhauer, e esse seria o escritor que consegue alcançar um equilíbrio entre o sucesso comercial e valor artístico. A vida não é uma tabela de categorias; você pode ser o que quiser ou simplesmente não ser coisa alguma. Assim como, muitas vezes, coisas produzidas com amor e apreço, e de excelente qualidade, conseguem atingir o público e, consequentemente, ocasionar em um número de vendas absurdo, do mesmo modo, por ser excêntrica de mais ou ferir a moral e os estigmas da sociedade, a obra seja brutalmente rejeitada pelo público. 

Novamente, que importa a moral ou estigmas sociais. A arte é excepcionalmente livre. Cada ser humano possui seu microcosmos, seu jardim para colher suas flores. Eu escrevo porque gosto e porque, quando se descobre um talento, a satisfação primeira deve ser a do artista. Ao nos depararmos com o nosso poema, ou desenho, ou pintura sentimos que merece ser admirado e contemplado — esse é sentimento desejado. Quando o planeta simplesmente decidir abortar todas as expectativas de melhorar, toda o mais parecerá irrelevante, exceto, é claro, que nunca haverá um ponto em que a esperança seja irrelevante, uma vez que, enquanto a humanidade viver, haverá arte e desta irão fluir lagos subterrâneos de esperança. Cada ser humano é diferente por si, e cada um de seus jardins é um pequeno mundo cosmopolita que vianda por todos os outros pequenos mundo, jardins eternos donde ver-se-ão brotar todos os dons.

— Ashley Matias

2021

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