Poema do Recipiente — Ashley Matias

Poema do Recipiente — Ashley Matias

 


Eu sou um recipiente

No qual se depositam

Cabelos de um pente

Ando a esmo pela rua

E me despeço de minha pele

A cada gota que sua

Eu sou um recipiente

Moldo os liquefeitos

E caminho em frente

E cada fio representa

Um lapso, que emerge do escuro

Mas à sombria luz te atenta

Os ramos são sempre tortos

E nem por tanto

Vês os arvoredos mortos

Em mim, corre magma hostil

Não espere de mim sangue

Vertendo em cor anil

Eu sou um recipiente

Guardam-me esperanças

De um importe tão áureo

Quanto a mais alta bonança

Entrementes, não amo qualquer

Dos cliente que me tem

Não resumo a bem-me-quer

Toda astúcia aprendida

Ou a blindagem em mim perfeita

Por eras de ciência sabida

Estou tão estafa de cantar

E de a tudo ser o canto

Mesmo estafa estou de planear

De dar a conta a quem pague

Minha mãe se despeita

Pela mínima palavra solta

— Quer ser solta? Respeita

Mas insurgi para a soltura

E entrei pela saída

Não vi medo àquela altura

Aliás, não vi coisa alguma...

Entre os insetos viajei

Até porta encontrar uma

E pelo ouro eu me guiei

Para frente eu sempre sigo

Não quero olhar para trás

Pensar-me de novo contigo

Passei a servir-me a alma

Em bandejas com café

E enxaguar na parca sauna

 Os pratos não mais sujos

Que mim, enquanto volteava

Nas espirais de caramujos

Eu sou um recipiente

— Eu a amo, estou à beira...

— Minha dama, deixa-me...

— ... Foder você inteira

— Tanto irei me lembrar de ti...

— Me esquece sua vadia...

E todos eram apenas cabelos

Tanto quanto os montes que tenho

E que perdi entre os selos

Mas assim como num corte

Em vezes a surpresa advém

Apenas de um pouco de sorte

Alguém que ainda não servi?

— Eu quero um pão e um segundo

Meu sorriso estava armado

E dei-lhe as horas do mundo

Eu penso, disse, que sou tudo

— Para mim, você, de fato, é

Não, argui-o, digo que não mudo

De corpo para ver em outra ótica

Eu observo os dirigentes

Irem a cimo de forma despótica

E das flores a brotar do solo

Apalpei-lhes o pedúnculo

Senti as dores em meu colo

De primeira e rubra alva

Vem-me meu irmão imberbe

Ai de mim ter face mais calva

Enfim, senti, ouvi e comi

Fi-lo tudo em minha prisão

Eu sou um recipiente

E também um caixão

Eu sei que às vezes

Eu a corda ando a seguir,

Mas não sei o que fazer

Quando ela se partir

Só me vejo ela a conduzir

Não queira se ver assim

Não queira estar tão longe

Ele se volta para mim

— Você é estonteante...

Mas não houve “eu te amo”

Então transamos em casa

Na casa, em qualquer parte

Em qualquer cômodo, arrasa

Esse meu novo namorado

— Eu esperava que das noites

você houvesse largado

Disse, não espero que entenda

Mas isso é o que eu sou

Não sou a cama, sou a tenda

Olhou-me e sorriu então

Não caiu, pois estava sentado

E segurou a minha mão

Pelos dias sombrios...

Eu sou o grilhão, sou a cela

E de novo veio o engodo

Sabia que eu era ela

A presa encarcerada

Que minha corrente não pulsava

Sem a seu peito estar ligada

— se assim me deixasse ser,

e poderia ser muito mais

Devo esperar você aquiescer?

— Entra-se em guerra pela paz

e você é minha harmonia

e há pouco o que fazer sem.

Vai dizer isso todo dia

— Todos os dias da sua vida

E quais asas voam agora?

Eu me encontrava tão perdida

Mas então veio o pedido

Dito em joelhos e perante

E nos fundimos na prata

De nossos termos não houve

Sequer uma única errata

Em uma solidão velada

Pelas vendas da noite

De dia, não havia nada

E se fazia a desavença

Mais pela mudez do gato

Que o miado, na essência

Refleti na veia segregada

Mas o sangue vaza por demais

E a prata é por demais sagrada

Ainda servia das bandejas

Na tépida tez da eternidade

Às vezes, em teu voo, adejas

Para te manteres no piso

Sem despenhar para o abismo

E ainda manter o piso liso

Para patinar

Enquanto todos escorregam

Homem, estou pegando o jeito!

Da labuta cheguei. E beijei

O consorte que jazia no leito

Não caiu, pois estava deitado

Deitava sempre, mesmo de pé

O ente corpóreo interditado

Senão no instante em que me via

Ser de novo seu recipiente

Sua vaga, sua maresia

Ainda não fosse meu desejo

Nenhum termo imperava

Para mim, era bom o ensejo

E cheguei a casa à meia-noite

O copo se expunha na mesa

Estava ele de novo em pernoite

Com a matrona de seu grado

Esse é o fim, meu único amigo

Não quero olhar para trás

Nem para espiar meu jazigo

— Transviada, vulgívaga hostil

Puta! Por que o nome oculta?

Desgraçado, torpe, falso viril

E naquela noite houveram

Marcas sobre o copo, mas

Meu verbos não imperam

À noite, naveguei nas ondas

Nas ondas que eu criei

Para imergir como as sondas

Eu quis olhar para trás

E imaginar de novo com ela

Saindo comigo do cais

Retornando para a terra

Ela não deu pecou ao fruto

Fez o fruto que a si mesmo traiu

De ouvi-la não fora tão astuto

Um descortinei meu segredo

Ao homem que pensei amar-me

Foi meu pedido de despejo

Eu sou um recipiente

Eu sou uma via,

Uma sobrevivente

E eu estava novamente às moscas

Era ele apenas um cabelo em meu pente

Que andavam elegantes pela rua

Entre os insetos de asas foscas

Estagnei o passo à esquina

Entre mulheres e filhos

Ali, a sujeira é albina

Veio-nos o anfitrião

Dono de meia calçada

Não nos tratou com aguilhão

Disse apenas, partam os pães

Estava entre os recipiente

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