Tem Uma Coisa Muito Engraçada Com Aquele Gato Em Cima Do Muro

Tem Uma Coisa Muito Engraçada Com Aquele Gato Em Cima Do Muro

 Não, mas eu compreendo quem utiliza títulos grandes demais para se ler de uma vez apenas.

Eu sei... Eu estou em algum recôndito obscuro em Belém do Pará, do qual eu sequer me recordo o nome, no entanto eu creio que se chama casa. Algo na janela me atrai bastante: ela não existe; materializa-se como uma abstração do vazio, o mesmo qual permite, sem embargo, a passagem da luz. A última vez que eu observei o mundo afora foi há longínquos cinco minutos. Se você possuir um relógio comum, analógico, notará que o ponteiro dançou trezentas vezes antes de completar cinco morosos minutos.

As minhas esperanças se resumiam àquele maldito parapeito. Caminhei até ele e percebi algo que não havia percebido do lado de dentro do meu quarto, o gato que se estorcia pelo beiral de um dos muros da casa adjacente. O vizinho não apreciava animais, mas aquele animal era dos mais ousados, preparado para despeitar até os mais atemorizantes seres. Por horas, seu miado foi o único som em meus momentos de solidão. Na última vez em que vi uma pessoa, eu não soube, a princípio, se se tratava de um ser humano ou de uma aparição. Em se tratando de fantasmas, eu sou quase um.

Quando eu saí hoje de manhã, eu gargalhei à beça, pois pressenti as intenções da chusma em me relembra a minha natureza etérea (e ninguém enxerga por detrás da intangibilidade de um poeta). Senão as pessoas de igual tino, eu haveria de crer que eu pertencia a alguma espécia extraterrestre perdida, nada extraordinária (uma subespécie, que deve sua existência a um infeliz acaso da evolução. Ainda assim, existiu algo que me prendeu a este mundo.

Há dois anos, eu a conheci, como uma viração que bafejava dos mares do pacífico, um aquento benquisto pela pele. Ela sorria das falas repetidas e repetia as mesmas falas, como uma atriz que não ensaiava as suas falas. E como era adorável ouvi-la pronuncia daisuki baka da, mas tive de ouvir, com a mesma voz estridente e soporífera, saionara. Hoje, eu estou aqui e poucas coisas me incomodam. Aproximo-me do parapeito e a cidade me parece pequena, embora a quinze metros. A casa ao lado era grande, mas pequena, semelhava. O sol despontava no céu, com a sua alva lentamente convertendo-se num arrebol límpido e alaranjado. Eu gostaria de ver, de chegar mais perto.


Mas algo ainda me incomoda muito. Tem um coisa muito engraçada com aquele gato em cima do muro: ele está subindo, subindo... E eu estou descendo.




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