Análise "Soneto do Maior Amor" por Vinícius de Moraes

Análise "Soneto do Maior Amor" por Vinícius de Moraes

Soneto do Maior Amor

Oxford , 1938

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante 
Desassombrado, doido, delirante 
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Vinícius de Moraes auferiu notoriedade no transcorrer na segunda fase do modernismo brasileiro. Conquanto haja edificado a sua carreira, essencialmente, como um poeta moderno, o qual pode ser constato por sua liberdade em usitar de métricas e rimas (não se atendo à estética como parâmetro, mas como auxiliar da mensagem), possuía um apreço especial pela forma fixa de 14 versos, dois quartetos e dois tercetos chamada soneto.
O poema exposto acima fora escrito em Oxford, provavelmente no período em que o autor estudara na Universidade de Oxford, a que se deve também a sua capacidade de redigir poemas em inglês, e, a meu ver, constitui uma obra-prima superior e mais preciosa que o afamado "Soneto de Fidelidade" devido à ambiguidade e à profundidade com que autor utiliza as palavras. Antes mais, o ato de interpretar a linguagem poética é somente um novo olhar em cima das mesmas palavras e quaisquer opiniões desenvolvidas a partir desse olhar não são nada menos que ideias imbuídas de uma paixão pessoal e cada leitor obterá, do mesmo poema, ideias igualmente válidas, já que inexequível estipular a ideia original, o verdadeiro estopim que desprenhou no poeta sua inspiração para escrevê-lo.
Na quarta estrofe: Louco amor meu, que quando toca, fere/E quando fere vibra, mas prefere/Ferir a fenecer — e vive a esmo, estabelece-se que o eu-lírico é um ente em conflito com seus próprios sentimentos, uma vez que constata que o seu amor é louco, que fere a coisa amada, no entanto, ainda assim, a deseja próxima de si. Constrói-se uma visão animalesca de amor (análogo ao desejo, pois não se interessa pela felicidade alheia, talvez nem seja amor). Uma relação como a descrita no poema é facilmente associada a um relacionamento abusivo.
A despeito das consequências sociais que derivam da própria mensagem do poema, o que ocorreria caso esse amor existisse, um tipo convulsivo que machuca quem ousar se aproximar do mesmo, um amor tristonho e desconsolado, como se o eu-lírico se encontrasse em um eterno Dilema do Porco Espinho e, assumidamente, se visse incapaz de expressar o seu amor candente senão de maneira tóxica e selvagem. Esse dilema é perfeitamente descrito no soneto, que, embora sucinto (marca registrada de qualquer soneto: curto, mas repleto de significação) consegue abordar de forma objetiva o sentimento dúbio da personagem.
Há sempre a necessidade, ao se analisar qualquer texto literário, separar o autor do eu-lírico. Particularmente, considero que Vinícius de Moraes estava lúcido e totalmente ciente do que o seu eu-lírico era. Quando se nota as novas camadas que esse poema pode ter, percebe-se o quão atual ele pode ser, visto que também pode ser lido como um retrato interessante de uma relação sadomasoquista. Como se lê na última estrofe: Fiel à sua lei de cada instante/Desassombrado, doido, delirante/Numa paixão de tudo e de si mesmo, este assume seu egoísmo ante a pretensão de manter próxima uma pessoa que, porventura, machucaria, que, talvez por um desejo sádico, goste de ser sofrer, de ver chorar (dacrifilia).
O eu-lírico, mesmo assim, é esclarecido a respeito de sua própria natureza, e não se enaltece, não demonstra orgulho pelo seu amor. Simplesmente, aceita-o como irrevogável, como algo inerente a si mesmo. Entra-se na discussão se uma relação de sádico para submissa pode, de fato, ser considerada uma relação amorosa ou se não é apenas o reflexo do orgulho e do egoísmo do dominante. Este é um poema com um tema delicado e com diversas camadas, que dialogam poeticamente com o dia a dia da atual sociedade, no qual best-sellers como a franquia de filmes e livros 50 Tons de Cinza ou o filme 365 Dias impõem-se como esteio para um movimento já bem antigo, mas que apenas atualmente ganhou notoriedade: romantização do que, a princípio, se consideraria uma relação de abuso.
O que exatamente, nessa relação é abusiva, uma vez que há o consentimento de ambas as partes? O que é amor? Quantas camadas possui o amor? E mais importante: são mesmo essas perguntas válidas? Por fim, eu coloco este poema como um dos melhores já escritos por Vinícius de Moraes devido à sua complexidade temática, sua coragem ao abordar uma temática como esta e a sua genialidade (porque o admiro mesmo, mas esta é apenas a minha opinião).

Cristian Lima

Nenhum comentário