Capitães da Areia - Esperava mais do livro! - Resenha

Capitães da Areia - Esperava mais do livro! - Resenha

 

 Quando eu estudava o período moderno da nossa literatura, muito ouvi falar do escritor baiano Jorge Amado. Repare que eu destaquei o adjetivo pátrio brasileiro. Sim, pois o Jorge Amado fez questão de narrar em suas obras a Bahia, com suas problemáticas e belezas. Pois então, embora eu soubesse a importância de Jorge Amado, nunca havia lido nada dele antes. Mas recentemente dei uma chance ao autor e li uma das suas obras mais aclamadas. Capitães da Areia.

Pois é. Não tinha o livro aqui. Decidi então baixá-lo por aí. Enviei para o kindle através do e-mail e não demorei muito para iniciar minha leitura.

 As primeiras páginas da obra nos mostram um jornal popular da cidade, onde noticia crimes cometidos por crianças de rua, os chamados Capitães da Areia. Essas crianças, por habitarem um trapiche abandonado, e estarem em péssima condição social, realmente furtam. Daí, o jornal desce o cacete nessas crianças. Os chamam de vagabundos e tudo que não presta. É. Preciso dizer que isso me fez lembrar nosso jornalismo brasileiro de hoje.

Ademais, os capitães da areia, têm uma vida semelhante a vida adulta, o que é um tanto diferente para crianças, certo? Elas então fumam e tem até mesmo relação sexual com mulheres mais velhas, e, fazendo de maneira horrível estupros, até mesmo, derrubando meninas que passam pelo areal.

Os capitães da areia têm um líder. É o chamado Pedro Bala, jovem astucioso que ostenta de coragem muitas vezes. Confrontando policiais, inclusive. Sua coragem é mostrada principalmente quando ele fora preso, após confrontar outra gangue de jovens rival dos Capitães da Areia. Claro que ele consegue sair da cadeia depois de executar alguns planos.  

Vejo que Pedro Bala fora bem referenciado na música Capiães da Areia do rapper Baco Exu do Blues.



 

Aliás, como um todo, Pedro Bala pode ser considerado a representação de meninos periféricos que se encontram na margem do país como ele. Quer um exemplo? Você já parou para pensar o que uma criança ou um adolescente favelado tem a nos dizer?

Se a resposta foi “não”, então você precisa ouvir o Kakas Mc.


 

Temos também em seu bando outros jovens. Cada um com sua particularidade.

O adolescente Gato, por exemplo, é o malandro, o garanhão, importando-se sempre com sua imagem e se relacionando com belas mulheres, como a Dalva, por exemplo. Que é uma prostituta, mas que o Jorge Amado a endeusa no romance. Ela é a morena, a mulher formosa, a brasileira.

O Sem-Pernas é um manco, que, usando de sua situação miserável, comove muitos em sua volta. Certa vez conseguiu ser adotado por uma senhora rica que sentiu pena dele. A velha deu de tudo, comida boa, roupa boa, brinquedos... Ademais, irei dizer que o Sem-Pernas somente procurou ser adotado para roubar a senhora com a ajuda dos Capitães da Arei.

Mas olha que interessante, nesse tempo curto que o Sem-Pernas ficara com a senhora, amou muito a velha, sentiu-se abraçado por uma mãe. Mas, no bando dos Capitães da Areia, existe o princípio de que todos devem ser fies ao grupo. Quando o Sem-Pernas teve oportunidade, fora direto avisar as vulnerabilidades da casa da mãe adotiva aos meninos e, assim, conseguiram furtar a velha.

 Mas o que nos vêm à tona são as perguntas: ele fez certo roubando a senhora? Por que ele não deixou, enfim, o grupo e realmente fora adotado? Por outro lado: E se ele fosse adotado realmente, não seria um grande traidor com o bando que o acolhera quando ele mais precisou?

Entre outros personagens, destacam-se o professor, que é um personagem inteligente, se não me engano é o único do grupo que sabe ler. Também é o rapaz que faz as estratégias de roubo.

E o Volta Seca que é um personagem inspirado no cangaceiro de mesmo nome. Volta Seca é a representação do sertão nordestino para Jorge Amado, que por sinal, faz muitas referências ao bando de Lampião no romance. Aliás, dizem que o Volta Seca ficou muito puto quando soube do personagem que Jorge Amado criou, inspirado nele.

O livro em si é bom. No começo, existem descrições muito boas, mas poderia ser melhor se o Jorge Amado não tivesse enchido o saco do leitor, repetindo quase sempre as mesmas descrições e tivesse trabalhado melhor a paixão de Pedro Bala com a menina Dora, única garota que entra para o bando.

Deixe-me tentar explicar. Dora é uma menina que, com seu irmão, perdera a mãe infectada por uma bexiga que se alastrou pela Bahia. Jorge Amado descreve a ela como exatamente uma criança que está se aproximando da mocidade. Seu corpo está se desenvolvendo ainda.  Daí o Professor, personagem que já citei aqui, comoveu-se e levou a menina para dormir no Trapiche, que por sinal, quase fora estuprada pelos meninos também, cena bem incômoda para o leitor. O professor, por sua vez, junto com João Grande (outro personagem), defende a menina e ela não é estuprada, ainda bem.

Sim. A Dora acaba se tornando mais uma integrante do grupo. E como eu disse, acaba se apaixonando por Pedro Bala, de uma maneira tão tosca, que... Meu deus.

Enfim, entendo a intenção de Jorge Amado em retratar os jovens baianos, e tudo o mais. Gostei do livro. Emocionei-me em certas ocasiões. Mas... Esperava mais.

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