Não Quero Morrer Em Uma Segunda-Feira — Cristian Lima

Não Quero Morrer Em Uma Segunda-Feira — Cristian Lima

Tanto mais ingênuo o que malfada o velho hábito do ócio. Quem me afirmaria eu se não possuísse um pouco de inércia; decerto um corpo não mais seria, mas um vislumbre, menos um sombra recoberta da penumbra de milhões de mechas apinhadas. Em meio à profusão de sendas para seguir, é preferencial andar sobre as mais sujas, aonde os antigos já pisaram e se enlamearam na poeira do passado. Talvez, por sorte, torne-se um sujeito venturoso, contudo que ainda não possui a sua próprio sombra. A estes venturosos devemos a sociedade circundante, da qual todos os seus membros debalde se empenham em fugir e se esquivar, pois ela é, por certo, o Leviatã soberbo que prenuncia o fim dos tempos.

Eu morava em um lar que era feito de plástico e linhas e voava como uma pipa, quando a linha não era cortada pela outra pipa e saía voando a esmo, sem que o vento pudesse fornecer alguma explicação. Desejo morrer em qualquer tempo, em qualquer dia, menos na segunda-feira. Que minha entidade protetora afaste esse dia maligno de mim. É o dia mais importante da semana, ou eu ouvi isso em algum lugar que não me lembro, mas eu sei, sim, era mais importante do que eu possa imaginar. Estou perdido sem me encontrar em lugar algum, exceto no mesmo lugar em que sempre estive.

Saí em busca do tempo. Há muito tempo, fugindo do passado e retornando com o vigor habitual, mas com a iluminação que sempre brota das músicas instrumentais e das congratulações por uma passagem bem feita. Dos aplausos, quando parecem ovacionar somente o feito de estar vivo. Abaixo da ponte, eu escrevi uns poucos versos, do fundo da alma e despejei o último conteúdo da poça de lama em minha mente. Há demasiados mundo em meus palácios da memória — em grande parte, deles me recordo como um desejo; em pequena parte, como um ensejo, uma chance de alterar o que fora e reconstruir a seda que eu teci. Um ensejo vale por mil desejos, mas um desejo muda inteiramente todos os ensejos. Meu poema era mais simplesquando eu escrevi e, por isso, eu me arrependo de tê-lo escrito.


Não Quero Morrer Em Uma Segunda-Feira

“Voe alto para galgar as céu da glória”


E novamente me sentei no paraíso

A digitar estrelas em papéis divinos

No sidéreo assento da prisão mais cômoda

Escutando o infernal trombetear dos sinos


Amo voar o empenho sobre as circulares

Eu amo o poço, o lodo debaixo das solas

No escritório, há uma gigante cortina

Meu Deus, não permita um relógio sem molas


Não quero morrer em uma segunda-feira

Apeteço a desforra do meu esforço

O nível acima de querer tudo o eu queira


Nem imperam todas as quedas e os cortes

Atacar o oponente bem como um corso

Se faltar ao trabalho, morro na própria morte.


E, ao morrer, percebo que estava dormindo.

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