Que Desatre: É Uma Menina (Conto)

Que Desatre: É Uma Menina (Conto)

Isabella Lewis desprenhou uma doce menina, de cabelos louros cacheados, em 1882, em um protótipo de civilização.O frio Londres que soprava da janela semicerrada, confortou-a com uma lufada soporífera após a sudorese extrema que sucedeu o esforo. O partejo transcorreu sem grandes empecilhos em sua própria casa. Seu marido, Conde Christopher Lewis estava estupefato, uma vez que sua esposa havia acabado de completar seu nono mês, contudo não velava a sua felicidade e seu orgulho, que beirava a soberba (mas não chegava a tal).

No dia seguinte, optou, devido ao ensejo do momento, visitar seu amigo e compatriota, Sir Duque Robinson, Elliot Robinson, especificamente; condecorado pela Rainha Vitória após suas conquistas na África do Sul, único herdeiro do acervo da família Robinson, após a morte de seus pais em um naufrágio. Naquela manhã, o sol emitia uma mornidão proveitosa e aquecia o coração do Lewis, mas também houve um certo pesar ao se deparar com o gradil dourada que antecedia a fronte da mansão dos Robinson, com seus arcos soberbos e engrandecedores. Humanos são sempre humanos. O Conde apresentou-se ao mordomo, que permitiu sua entrada ao ver o seu rosto. Em seguida, descia pela larga escaderia Sir. Elliot Robinson em pessoa, com as mãos para trás e um olhar de galhofa.
— Conde Lewis, a que devo vossa ilustre presença?
— Desejo-lhe contar uma nova, que talvez lhe interesse, caso esteja interessando em ouvi-la.
— Ora, eu estou sempre interessado em estórias, sobretudo vindas de vossa mercê. Tenha a bondade. — com a postura firma, apontou a poltrona estofada na sala.
— Agradeço o gesto, Duque Robinson. — respondeu Christopher. Ambos se acomodaram e a criada trouxe-lhe duas xícaras rosadas do mais puro chá.
— Elliot, por obséquio. O conde um grande amigo da família. — o Duque meneou a cabeça. — Por família, entenda-se eu. — riu de maneira comedida.
— Pois bem, sou um homem comprometido como sabe. — começou Christopher, quando Lewis o interrompeu.
— Sim. Soube do casório. Infelizmente, não pude comparecer. Ela cozinha bem?
— Eu preparo uma refeição melhor. — ao ouvir isso, o Duque pôs-se a rir.
— É uma troça, não é? — disse. Lewis franziu o cenho como se dialogasse com uma czar.
— Por que seria?
— Meu caro — disse o Duque, aplicando um tom grave que não lha caía bem —, prepara a suas próprias refeições depois do dia cansativo?
— Gosto da comida do meu jeito, se me entende.
— Ora. De que serve uma mulher senão para cozinhar?
— Eu presumo — replicou o Conde Lewis, ponderando suas próximas palavras. — que todos provemos de uma.
— Perfeitamente. A procriação é o ato sagrado da vida, todavia, afora isso, devemos mantê-las em seu nicho, e as tarefas domésticas lhe caem bem. O cavalheiro poderia ensinar a Lady Lewis a ser... uma esposa melhor.
— Ela é celestial, a seu modo. Não carece ser tutorada, mas permita-se lhe contar: ela teve uma cria ontem noite.
— Menino ou menina?
— Uma menina.
— Hã. — exprimiu Duque Robinson, bebendo um gole de chá. — Minhas condolências.
— Perdão?
— Reservou o dinheiro para os dotes? Ah, uma dama, hodiernamente, é enorme dispêndio (eis por que jamais me casei), sobremaneira, em se tratando de vestidos e joias. O senhor deve se preparar desde já e ensiná-la a como se portar em sociedade. Há muitas mulheres da rua em nosso tempo.
— Duque Robinson, o senhor tem um especial repúdio a mulheres, ao que me parece.
— Hã. Questiono-me como poderia ser diferente. É imputada a elas a razão de estarmos aqui. — olhou pela janela, os prédios de Londres compunham o cenário pomposo, incapaz de ocultar o antro de delinquências e obscenidade que acercava Londres — É delas a culpa por estarmos nesta fétida existência.
— A história que você conhece diverge da minha.
— Refiro-me à Bíblia Sagrada, meu amigo. Eva, a presunçosa, foi a responsável pelo primeiro pecado.
— Bobagem pseudorreligiosa. Os textos sagradas citam apenas pecado. Meu caro amigo, quando Eva comeu do fruto proibido, nada acometeu-os. Foi necessário que ambos se propusessem a sorvê-la. E quanto à ordem dos acontecimentos, creio que, para Deus, pouco lhe importa quem deu início a tudo. Somos todos pecadores em igual nível.
— Assim nos põe ao mesmo nível que ladrões e assassinos.
— E quantos o cavalheiro ordenou assassinar em nome da Coroa, quanto de cobiça o senhor esboça a si mesmo ao consultar seu espelho de bordas douradas? — inquiriu o Conde Lewis, momentaneamente triunfante. Elliot Robinson gargalhou intensamente.
— Isto é um equívoco — disse ele, por fim. —, todos a quem matei eram pretos que embargavam o crescimento de nosso império. Deve saber que a Rainha satisfaz suas vontades com sangue, mas Deus luta ao lado de nosso reino.
— E como sabe disso?
— Porque fomos vencedores. Acaso, Deus faria vitoriosos os injustos?
— Acredito que ele não interferiria, mas daria aos justos o ensejo de lutar.
— Esta discussão toda apenas para legitimar a pureza das mulheres. Ora, são bem-vindas nas horas de anseio e quando são férteis. Do contrário, de que seriam úteis? Se a Bíblia em si já postula um papel para cada ente, quem sou para contestar?
— Elliot, você exagera em suas opiniões. — proferiu Lewis, internamente irritado. — Você tem o poder, monetário e político, para decidir os rumos de sua vida, mas esposa que auferir em um futuro próximo não obterá. — Lewis levantou-se de súbito.
— Pois assim é! — proferiu Elliot, erguendo-se em seguida, aumentando o tom, sem perder sua compostura. — A vida de uma mulher não é mais válida que a de um homem, sobretudo, ao se falar de política.
— Pode afirmar isso à Rainha Vitória, a quem, em última instância, respondes. — retrucou Elliot. Seu amigo deu risinho consternado, mas com toques de profundo desdém.
— Você está irritado comigo por lembra-lhe de que sua mulher não exerce seus papel de maneira satisfatória.
— Como disse?
Eu disse que sua mulher é uma péssima esposa e que espero que sua filha não tenha a mesma educação ou poderá não encontrar um parceiro para o casamento.
— Enfim. — disse Robinson, não fatigado, mas enfastiado da conversa. Sentou-se novamente junto a Lewis. — Não foi para isso que veio aqui. Como é a vida de casado?
— Decerto não vim aqui para isso. A vida de casado é similar à de solteiro, porém a dois.
— Como uma multiplicação de um número vezes dois: o resultado é sempre o dobro. Amargura em dobro, felicidades em dobro.
— De fato, mas apenas experimenta-se a máxima felicidade em contraponto ao máximo sacrifício.
— Como sempre, filosófico, caro Lewis.
— Se me permite, Duque, o assunto do nascimento era o assunto secundário. Tenho algo mais a lhe contar.
— Hã. Prossiga, por obséquio, caro amigo.
— Aguardei por este momento por muitos anos, entretanto, antes de lhe contar, preciso fazer-lhe uma pergunta.
— À vontade.
— Considera que as mulheres possuam um intelecto inferior à de um homem?
— Absolutamente. Em todos os aspectos, eu posso garantir que um homem normal possui mais perspicácia para resolver um problema comum do que uma mulher em seu máximo grau de instrução.
— Sendo assim, todas as mulheres são tolas?
— Veja bem, há situações em que damas possam ser mais eficazes, entretanto apenas no que tange aos "assuntos femininos". Respondendo à sua pergunta, sim, no geral.
— Compreendo. Agora, por gentileza, conte-me de sua educação?
— Hum. — disse o Duque, considerando a pergunta. — Da melhor qualidade. Por que a pergunta?
— Soube que, a princípio, fora educado por sua mãe.
— Como soube disso?
— È verdade?
— Bem. Sim. Ela lecionou-me algumas palavras. Como todas as damas, tem um dom natural para ser preceptora.
— Concluo, portanto, que você é um tolo, pois aprendeu com uma.
— Mas que despeito é este? Com quem pensa tratar?
— Eu lhe direi... Isabella Williams.
— O quê?
— Lembra-se de algo? — o Duque o fitou com um cenho franzido e espantado. — O nome de batismo de minha esposa, antes de seu primeiro casamento com o Duque Stuart Robinson, seu pai.
— A que diabos você se refere?
— Setembro de 1871, um navio mercante afunda no oceano Atlântico. Todos os seus passageiros são considerados mortos. O que poucos sabem é que um mulher foi encontrada por um navio mercante espanhol e abrigada como uma escrava para serviços íntimos e culinários. Nesse ponto, eu a encontrei em minha viagens. Sua identidade havia sido perdida, e eu fui acometido por um boa dose de compaixão e amor, como sinto por todas as mulheres hoje e no passado, por quanto sofreram. De todo modo, casei-me com ela. Ela me contou que tinha um filho e que gostaria de retornar para com ele no momento certo. Após conversamos bastante, consideramos que esta seria uma boa ocasião. Eu vim aqui para lhe anunciar o nascimento de sua irmã, Sir. Robinso... E para que tenha notícias de sua mãe. As únicas mulheres, atrás da rainha que o senhor não se atreveria a proferir malogros. Assim o é. Somos seres condenados, desprezíveis caro amigo, e nessa conta não importa se temos falo ou não. O que importa é o que sentimos e fazemos. — O Conde Lewis aprumou o sobretudo e saiu, com a criada abrindo-lhe a porta. Suas feições eram artificialmente polidas, como sempre, o cansaço era disfarçado ou, na linguagem comum, "civilizado" para cobrir as nódoas. Christopher voltou-se para ela e disse-lhe em confidência:
— Não se aturda. Você é muito mais do que este emprego sugere. — em seguida, dirigiu-se a Robinson. — Sir. Robinson, perdoe-me as palavras, se lhe foram ofensivas, mas eu genuinamente não importo. Não é de mim que verá a justiça.

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