Tocando Piano Na Chuva

Tocando Piano Na Chuva

O céu regurgita seu planger novamente e expurga as nódoas da massa, a andejar sob a réstia que lhes sobra do afago. A terra maculada, encharcada com o dissabor das lágrimas salgadas, refaço meus caminhos, habituando a mensurar quanto chão premeram meus passos (sempre menos do importe de viver). Os chatos, onerosos como o vento, a todo instante em seus cantos circundando, cingindo-se de orgulho, com seus olhos refinados pelo tempo, para olhar por dentre as brumas e avistarem primeiro os buracos, quando todos desejavam apenas despencar. Aos chatos e aos fracos, enquanto se enxertam nos colos virgens, que dessabiam estarem grávidos.
Era uma pequena ideia sem norte, cuja brisa não se conhece a morada (e quando se perde o sentido dos sopros, chama-se o biruta). Para os monótonos, com seus discursos soporíferos. Assiste a mim destituir de vós a retórica dos deuses. Suas palavras acercadas de fastio, das quais a vida se enoja, os charutos de apinham de fumaça e aquiescem em alguma praia sem nome com um coco e o som do mar, debatendo-se com os recifes.
Eu sou livre, e apregoo a liberdade aos que ousarem usurpá-la, posto que não sorriram os culpados por injúria, não riu o que tem seus dias contados por um carrasco sem apreço. Havia mais sentido em caminhar sozinha. Para os idiotas, os sagrados templos do prazer não são mais que as vidraças que refratam as flamas perenais. Diga qual a virtude que a prisão assume quando está mais próxima da estase, que para a espaçonave no espaço aberto e encontra apenas o recurso do silêncio, pois essa é linguagem dos fracos.
Estou sempre em meu salão, tocando piano na chuva que condensa acima, com os abajures presos às nuvens no teto, prestes a cair em suas cabeças (morreriam, mas, ao menos, com suas mentes mais clarificadas). Em chamas, com o condão mágico do fogo, as pessoas sempre dizem, não, para o que poderiam dizer, sim, e contam os dias para um mês que jamais chega. É o fim para os que fogem. Nossos poucos amigos estão mortos. Quem disse que eu estava surpresa? Quem disse que eu estava correndo para longe.
Eu não me protejo do destino. Eu não pinto as paisagens que jamais avistei. Estou sempre buscando alimento para os olhos, dança para alma, pianos que não estraguem com a chuva que cai dos céus em dias de verão. É uma bonita amiga a música que toca das teclas e costuma encharcar os ouvidos de quem ouve. A canção adorna seus ouvidos, extirpando o fastio com uma panaceia absoluta, seus pelos já crispados se eriçam e rebolam em ritmo de orgia, entorpecidos com a visão das minhas notas. Meus dedos como armas que atiram chocolates disparam contra eles e os enfeitiçam. Ele começa a ver o mundo tão triste quanto é hoje e o que muda é o excesso de mentiras. Ele poderia sair, tornar o mundo um lugar menos achatado, poderia explodir todas o vento com a força das suas velas, amassar as montanhas com os seus passos mas o ouvinte apenas cai ou morre em algum lugar distante, com um bala disparada pelo próprio dedo.
Mas eu continuo tocando piano na chuva.




Não bata na porta.


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