Doidinho de José Lins do Rego - minha resenha

Doidinho de José Lins do Rego - minha resenha

 

Depois de ter lido o Menino de Engenho do José Lins do Rego e de ter amado muitíssimo, doei-me a leitura de Doidinho, a sequência do primeiro livro, Menino de Engenho.

Depois de viver solto no Engenho Santa Rosa, o menino Carlos de Melo é obrigado a deixar a fazenda de seu avô e ir para a escola interna. A passagem do menino para a adolescência entre as quatro paredes do rígido internato em Itabaiana é o ponto de partida para Doidinho. Se no engenho Carlinhos, como era conhecido, reinava em vontades, no rígido internato de Itabaiana ele vai descobrir que de pouco vale ser neto do maior coronel da região. Na escola, a lei reinante é a palmatória e as regras são as mais restritivas possíveis. Em vez do interesse pelas letras, a escola só faz despertar em Carlinhos a revolta. O menino não se conforma com as injustiças praticadas pelo diretor e os professores em nome da disciplina. A convivência com os outros colegas também contribui para a perda da inocência do menino. Publicado em 1933, a obra é considerada a continuação de Menino de engenho, mas é mais ousado ao tratar de assuntos polêmicos para a época como homossexualidade, corrupção e as precoces experiências sexuais do protagonista. A história terá sua conclusão em Benguê, publicado em 1934. Todos os três livros registram as recordações de infância e adolescência de Carlos de Melo, ou Carlinhos, órfão de mãe, criado pelo avô na fazenda Santa Rosa, no interior nordestino.

De início, o Carlos de Melo, personagem um tanto danado, encontra-se numa escola rígida, aquele tipo antigo de internato. Daí já percebe a mudança "trágica" em sua vida. No engenho de seu avô, costumava ter uma maior liberdade. Aqui na escola, porém, tem essa liberdade cortada pela raiz. Ele é castigado muitas vezes, aquele tipo de palmatória, por exemplo. É nessa circunstância que ele reflete acerca dos canários que ele prendia lá no engenho:

Na cama começavam a chegar os meus pensamentos. Éramos seis no quarto pequeno de telha-vã. Ninguém podia trocar palavras. Falava-se aos cochichos, e para tudo lá vinha: é proibido. A liberdade licenciosa do engenho sofria ali amputações dolorosas. Preso como os canários nos meus alçapões. Acordar à hora certa, comer à hora certa, dormir à hora certa. E aquele homem impiedoso para tomar lições, para ensinar à custa do ferrão o que eu não sabia, o que não quisera aprender com os meus professores, os que não me davam porque eu era neto do coronel Zé Paulino. Agora não havia mais disso. Era somente um Carlos de Melo como os outros, menino atrasado, no segundo livro de leitura, quando existiam menores no Coração.  

"Doidinho" é o apelido que o Carlos de Melo recebe por ter hábitos estranhos. Esse também vem a ser a causa principal do Bullying que ele sofrerá. Aliás, esse xingamento vem a ter maior repercussão quando os colegas descobrem que o pai do Carlos de Melo era um louco que fora internado, por ter matado sua esposa. Muitas vezes o menino se irrita e reage com violência. Afinal, qual criança não se incomoda com o bullying?

É uma "aventura" e tanto essa coisa do Carlos de Melo na escola. Aqui já podemos perceber uma certa "maturidade" aflorando no personagem. 

Ademais, o romance é fora de competição. Lins do Rego nos traz um elemento incrível: a contação de histórias. Sendo contações inspiradas na vida do próprio autor, largar o livro é uma tarefa difícil, pois a gente se aproxima muito das histórias. Não sei quando irei ler a continuação deste Doidinho, Banguê, por conta da minha lista de leitura que está enorme, mas com certeza, farei. 

 Por fim, de um a dez, com certeza daria dez. Isso porque é o tipo de livro que gosto de ler: simples e na linguagem brasileira.

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