O pássaro curió - crônica

O pássaro curió - crônica

 Eu comprei um tabuleiro de xadrez. Eu tento jogar, eu não sou um grande jogador. Na verdade, somente sei as regras, mas nesse ponto estratégico, nesse ponto matemático de criar grandes jogadas, eu sou ridículo, eu perco todas as partidas. Mas eu comprei o tabuleiro com a intenção de jogar com os amigos, enquanto bebemos vinhos, embora eu perca realmente as partidas. Mas existe um problema: a maioria dos meus amigos não entende das regras do xadrez. Em contra partida, sabe jogar damas. Parando para pensar, não tem como dizer que “damas é mais complexo que xadrez”. Damas é um jogo simples, porém não é um jogo ruim. Pelo contrário, pelo fato de ser um jogo simples, requer muita atenção. Acaba que o xadrez é o jogo de quem distingue-se pela elegância e as damas é o jogo de quem distingue-se pela humildade.

Então eu estava aqui em casa com o tabuleiro de xadrez que comprei. Ligo para o André, um amigo meu:

— Ei, vamos jogar xadrez e tomar um vinho tinto, pô.

— Pô, meu mano, pior que eu nem sei jogar xadrez...

— E damas? Damas sabe?!

— Damas sei!

Agora eu explico a ele que tenho somente o tabuleiro de xadrez e que, para jogar damas, “podemos procurar tampinhas de garrafas. Doze vermelhas e doze brancas! Daí a gente joga damas nesse tabuleiro que tenho aqui”. Decerto, ele concorda. Vamos então pela Vila Regina procurando benditas tampinhas de garrafas pets.

Não é fácil, as vermelhas a gente até que conseguiu, agora as brancas...  Ah, meu Deus. Por que que encontrar tampinhas brancas de garrafas é tão difícil?

A gente continua procurando. A gente olha para a esquerda, a gente olha para a direita e nada encontra. Mas algo nos chama a atenção. Em uma varanda de uma casa dessa Vila a gente vê um papa-capim e um curió. Um curió perfeito, com anilha. Um curió lindo e legalizado com aquela plumagem castanho-avermelhada, um curió desses que faz qualquer um tremer na base — afinal, qual amante de aves num entende a preciosidade do canto do curió? André confirma me dizendo:

— É, cara! Um curió é tão valioso que já soube de gente que precisou vender um carro para comprar um exemplar desse.

Creio que se nessa mata atlântica da nossa área existisse curió... não sobraria armadilhas para capturá-los, os sabiás, os sanhaços, os guriatãs que o digam. Os moleques daqui são como o personagem Carlos de Melo — da obra de José Lins do Rego — que precisa prender e tirar a liberdade dos canários para que ele alcance a sua liberdade. É isso mesmo, sentem-se livres aprisionando as aves. O matuto do litoral está próximo do matuto do engenho.

Mas não é somente a criançada que tem essa coisa de prender aves.  Um dia desses eu andava por aqui pela vila e ouvi o canto de uma maritaca. É o canto que sempre ouço quando passo próximo daquela casa — falando nisso, devo dizer que amo a maritaca, mas esses seus gritos são horríveis. Então a dona da casa estava varrendo seu quintal, eu gritei um grito meio baixo: — vocês têm uma maritaca aí, é?! A senhora fez de desentendida, então eu repeti. Agora ela parece que “entendeu”. Logo, em seu rosto se fez uma expressão de medo. Ela negou, negou com medo. Talvez pensasse que eu fosse alguém do IBAMA, talvez pensasse que eu fosse denunciá-la por “tráfico de animais”. Não, senhora, hoje não.

Também como posso explicar os senhores que andam de cinco da manhã por aqui, campeando com “seus” passarinhos presos nas gaiolas, assobiando?

Enfim, volto a olhar para o curió dessa varanda. Ele é perfeito, né?! Perfeito como naquela música que ele é homenageado, “Curió do Bico Doce”, que diz assim:

Curió do bico doce
Passarinho quem te trouxe
Pra chamar meu carimbó

Sim, tudo que é de bonito pode ser adjetivado de curió, por conta da beleza do seu canto. Doravante chamarei de curió a pessoa amada, o nascer do sol e a lua cheia.

Por fim, disperso-me do passarinho e vou em busca das benditas tampinhas, estas tampinhas chatas que me tiram a paciência. 

 

- Danilo Soares 



Imagem da internet.

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