O primeiro amor

O primeiro amor

Acordo. Abro a janela, vejo as galinhas do vizinho e ouço o latir do seu cachorro. Esta manhã tem cheiro de esperança. Agora pego o jornal que se encontra em cima da minha pilha de livros desorganizada. Vou até a cozinha e coloco o café no fogo, enquanto leio o jornal. O café não demora muito para ficar pronto. Seu cheiro está forte. Ponho-o na xícara, apreciando-o com calma e com muito foco. Tomo um gole e volto ao jornal, esta edição do Rascunho está excelente. Nela há um texto interessante, chama-se “Para Onde Vamos?”. O autor, José Castilho, nos provoca desde o início: “a ideia de uma sociedade letrada vem de longe, seria ocioso relembrar aqui esse percurso que se perde nos séculos da história e da filosofia”. Continuo a ler o texto, porém, lá próximo do seu fim, no último parágrafo, fico sem foco para terminá-lo, isto porque me vem à mente uma lembrança constrangedora. Lembro-me do meu primeiro amor. Estamos ali na rua, abaixo de um sol muito quente, estou com vergonha de pedi-la em namoro. Mas a viagem até sua casa não pode ser em vão. Tomo coragem e recito um poema besta para ela, ela rir, nesta hora me acelera o coração, peço-lhe em namoro. Ela aceita, beijo-a com felicidade e com muita timidez. Meu Deus!

Como são desgraçadas essas lembranças. Chegam assim do nada e em qualquer ocasião. Às vezes estou correndo e lembro-me desse ex amor, então paro de correr e me xingo. É incontrolável. Quem ama deve estar ciente que não sairá bem equilibrado. Como no meu caso, restará pelo menos a história para contar na roda dos amigos, em plena bebedeira universitária onde todo mundo quer manter o estereótipo do boêmio, aquele que amou muito e que diz: aquela música do Vinicius de Moraes (ou do Tim Maia) fora feita para mim — na verdade, bem na verdade mesmo, eles não ouvem Vinicius de Moraes (ou Tim Maia), mas ouvem Marília Mendonça.

O pior de tudo é que, depois de ter amado tanto uma pessoa, tu podes enganar-se amando outras. Podes namorar outras pessoas, mas se caso num tenhas êxito também com estas, infelizmente irás voltar a lembrar do primeiro amor. Pois é, é na solidão que tu voltas a lembrar do que te fez bem. Eu digo isso como se fosse um velho, mas eu num sou um velho, sou apenas um jovem ressentido, não vês?

Olhe, Augusto dos Anjos dizia que o amor é uma cana azeda. Certamente ele se frustrou também. Coitado do tio Augusto. Mas é assim, esta coisa num escolhe o plebeu — ataca todos. Nessa ocasião, prefiro o Soneto de Vinicius de Moraes que diz:

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure.

Foi infinito enquanto durou e foi muito bom.

 


Danilo Soares

 

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