Agora o forró é Patrimônio Cultural Imaterial

Agora o forró é Patrimônio Cultural Imaterial

“Que tontos, que loucos somos nós dois. / Estando com outro e nos amando.”, diz a canção de um forró eletrônico. No sentido moderno da palavra, a letra tem uma intenção “platônica”. Contudo, acaba sendo cômica por conta dos feitos de seus ouvintes. Eu por exemplo, como ouviria uma canção dessa sem ceder ao desejo de chorar, bebendo a cerva? – aliás, a primeira dose sempre é para o santo. O santo que anda comigo, seu Jorge, já deve tá com o fígado tão desgraçado quanto o meu, coitado! Do jeito que as coisas andam, nesses dias é capaz que seu Jorge fure as nuvens e desça do céu para me trazer em casa a cavalo. Eia, seu Jorge! Isso é a vida, derruba os melhores.


Mas se a gente lembra do forró tradicional, o que chamamos de Pé de Serra, extasio-me. É que um Luiz Gonzaga, para mim, é como um ídolo santo: “São Gonzaga”, cairia bem?! O ritmo de fundo desse forró é bem melhor que o daquele. Ah! Então prefiro esse tradicional mais que o eletrônico, já que o forró do Gonzaga me convida ao menos tentar ser o que num sou, como dançarino, por exemplo:


Lembro-me até de um período de festas juninas. Eu com uns 15 anos fiquei sabendo de um rapaz que estava a organizar uma quadrilha junina aqui na aldeia, então eu quis participar, porque meus amigos também já participavam – eu tinha medo da solidão e tinha inveja de quem era popular. Toda sexta feira, pela noite, tinha ensaios. Eu ia todo alegre, isso porque meu par da quadrilha era uma moça bem arrumadinha. Mas eu num sabia dançar desgraça nenhuma. A música dos ensaios era a Asa Branca do Gonzaga. De início, o professor mandava eu segurar na cintura da moça, eu fazia! Eu fazia com a delicadeza de um matuto besta, mas quando a boa música começava, eu errava todos os passos. Todos. A moça tinha vergonha de mim e eu sentia a vergonha dela. Não demorei muito para almejar a aposentadoria da minha carreira de dançarino, aquela carreira que mal tinha começado: pedi para outro jovem ensaiar a quadrilha no meu lugar. Sim, até hoje não sei dançar, nem cantar e o ritmo musical me odeia. Mas fique tranquilo que, como disse nesse parágrafo, Gonzaga continua sendo, para mim, um ídolo santo, justamente por ter me proporcionado – além de tudo – esse momento “maravilhoso”.


E há uns dias o forró foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial. O reconhecimento é grandioso, mas eu já sabia que o forró é isso tudo. Aliás, todo nordestino já sabia que o forró é tudo isso. 


 

 

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