Modernismo - Manuel Bandeira na literatura brasileira

Modernismo - Manuel Bandeira na literatura brasileira

 

 


Manuel Bandeira é um dos maiores poetas de toda a literatura brasileira, isso porque escrevia e conhecia, como a palma de sua mão, os inúmeros métodos de produzir versos — inclusive, além de ser autor de inúmeros livros de poesia, também é autor de A Versificação em Língua Portuguesa (obra que aborda os conceitos de versificações usados na nossa língua) e Apresentação da Poesia Brasileira, ensaios críticos sobre os principais poetas brasileiros.

Ademais, Bandeira é o moderno importante desde o início do modernismo brasileiro, já que na Semana de 22, festa que deu início a essa nova escola, teve seu poema Os Sapos recitado no evento. Contudo, o poeta não deixou as técnicas antigas para abraçar de vez o modernismo. Não, muito pelo contrário, Bandeira começa a entender que agora há mais uma maneira de escrever versos. Junta, então, o ritmo clássico, a arte pela arte, o simbolismo, a melancolia... e constrói nesse novo solo uma poesia leve, aprazível de se ler, ritmada, cômica, nostálgica. Algumas vezes sente a necessidade de recorrer à antiga metrificação para compor uma canção ou uma quadra, mas também muitas vezes prefere escrever em versos livres como agora já é possível nesse modernismo. Por isso, ele é o poeta centrado, nele não há o extremismo dos modernos — aquele mesmo extremismo que buscava ofender gratuitamente os clássicos — mas nele há esse centro que oferece novas possibilidades de escrita: metrificação ou verso livre. Esse é o mesmo centro que está presente em Cecília Meireles, por exemplo.

Abaixo um poema do Bandeira escrito em redondilhas.


A Estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Abaixo um poema de Bandeira escrito em versos livres:

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.



(Recife. Imagem da internet)
 
No que tange o conteúdo de sua obra, as imagens nostálgicas do seu eu criança ou da sua Recife são muito recorrentes. Acerca de sua infância como um todo, esse símbolo presente torna seus versos originais e por vezes cômicos, é verdade:
 
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
 

Agora sobre a Recife presente no poeta, Cyl Gallindo (1935-2013), escritor e ensaísta, já observava:

O nordeste na obra bandeiriana não figura em forma de regionalismo, ou imposição doutrinária, e sim como expressão lírica de um poeta que revela a sua alma, a sua terra. Vem de dentro, como quem canta e dança o baião, o maracatu, o frevo. É a singular coreografia pura das palavras, com obediência natural das suas concordâncias, que compõe o verso e exalta a região.

 Ademais, é um fato que Bandeira é um poeta do cotidiano, versa as coisas comuns. Muitas vezes seu poema é como a crônica do Rubem Braga, este que também extrai a poesia do tráfego matutino, da infância, do aroma de civilização e do inesperado.

 

TRAGÉDIA BRASILEIRA

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,

Conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos,
uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.

Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou
médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.

Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez
nada disso: mudou de casa.

Viveram três anos assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos,
Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua
Clapp,
outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato,
Inválidos...

Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de
inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em
decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

 

O pessimismo de Bandeira também se faz presente em sua obra. Bandeira lutava contra o tempo. Fora acometido, aos 18 anos de idade, pela tuberculose, desde então vivia acreditando que a morte viria abraçá-lo a qualquer momento. 

 Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre


Preparação para a morte

A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu voo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

 

Pois bem. Para quem é a leitura do poeta Manuel Bandeira? Para todo mundo, inclusive para os jovens, já que Bandeira é tão cômico e intenso como pus aqui. 

 


 


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