Resenha e análise de O Corvo - Edgar Allan Poe

Resenha e análise de O Corvo - Edgar Allan Poe

 


Para começo de conversa, vamos falar um pouco acerca do autor, para isso estou utilizando os textos de apoio da edição Medo Clássico – Edgar Allan Poe da editora Darkside como referência, ok?

 Pois bem, Poe foi um cara bem conturbado; SUA VIDA fora conturbada. Nasceu em Boston no dia 19 de janeiro de 1809. Foi abandonado pelo pai com apenas um ano de idade e perdeu a mãe para a tuberculose no ano seguinte. Daí fora adotado por Frances e John Allan.

Ele vem a ter problemas com essa nova família: até reconhece o amor da mão adotiva, Frances, mas vem a se incomodar com o seu pai adotivo, John Allan – já que este era bem rigoroso com o menino.

Contudo, foi graças aos Allan que Poe pôde morar e estudar na Europa, além de prosperar carreira militar e universitária. Mas veja que Poe tinha tudo, menos abrigo e aconchego, “e provavelmente por isso, Poe terminou alijado dos Allan – sem herança, dinheiro, senso familiar ou vínculo amoroso."

O poeta francês Baudelaire vem a comparar os traços fisionômicos de Poe com a obra deste. Faz sentido, já que a aparência de Poe é tão estranha quanto a sua obra: "horrível" no sentido da palavra "horror".

E um dos seus textos que traz esse horror é o seu poema O Corvo, na verdade, alguns caracterizam como poema, outros como conto. Eu acho que é um conto em um corpo de poema. Sim, a estrutura, o ritmo, as rimas... São características de um poema. Mas o enredo é de um conto de suspense:

É o seguinte, tem um cara muito lascado, triste, porque acabara de perder a sua esposa. Ele está sentado em uma cadeira, lendo um livro que utilizava para estudos, de repente alguém bate à porta, e o cara demora para abrir – até pede desculpa pela demora -, mas quando ele abre de fato a porta, não há ninguém, somente existe a escuridão da noite. E o clima fica tenso, mas ele volta para a cadeira. Depois, alguém novamente bate, mas dessa vez é na janela. E quando o nosso amigo abre a janela, entra dentro da sua casa um horrível corvo que pousa em um busto de Atena, a deusa da sabedoria.

Daí o conto poderia ser muito chato senão tivesse sido escrito por um grande escritor, né? O homem olha para o corvo e brinca um pouco. Ei, passarinho, de onde tu vens? Como te chamam lá pelas noites? Aí o corvo responde “nunca mais”, como se tivesse entendido de fato o que o camarada disse.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me alli por um momento,
E eu disse: «Ó tu que das noturnas plagas
«Vens, embora a cabeça nua tragas,
«Sem topete, não és ave medrosa,
«Dize os teus nomes senhoriais;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
E o corvo disse; «Nunca mais.»

(tradução de Machado de Assis)

Começa a refletir e continua a perguntar algumas questões acerca da vida ao pássaro. Então ele queda espantado, porque o corvo se mostra entendedor, mesmo somente repetindo uma única frase: nunca mais. A princípio, acha que o corvo está trazendo essa frase da antiga convivência com um mestre, cansado da vida e que repetia exatamente: “nunca mais”. Sim, existem corvos que – assim como os papagaios – são capazes de vocalizar, aprender a imitar seres humanos e até mesmo outros pássaros.


No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: «Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
«Perderei também este em regressando a aurora.»
E o corvo disse: «Nunca mais!


Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
«Que ele trouxe da convivência
«De algum mestre infeliz e acabrunhado
«Que o implacável destino há castigado
«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
«Que dos seus cantos usuais
«Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
«Esse estribilho: «Nunca mais.»

(tradução de Machado de Assis)

A parte mais triste é quando o nosso camarada começa a indagar se existe/existirá conforto na vida e o corvo diz que “nunca mais”. Então o homem se estremece de tristeza. A seguir, pergunta ainda sobre sua amada, se a verá em outra vida e o corvo continua a dizer, perfeitamente: nunca mais.

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

(tradução Fernando Pessoa)

Ademais, O Corvo, como mostrado, é um poema bem ritmado, cheio de simbolismo – o Allan Poe nos traz alguns significados desses símbolos em seu ensaio Filosofia da Composição. Sobre o ritmo, é incrível, tão musical na estrofe abaixo que me orgulha a tradução do Machado:

  

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado,
Mas o silencio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

 

A Filosofia da Composição

A filosofia da composição é o título do ensaio do Poe, o qual ele nos traz as ideias e técnicas utilizadas para a composição d’O Corvo. Eu li e reli esse ensaio e o achei incrível. Aqui Poe nos diz que começara a escrever o texto pelas últimas estrofes, pois segundo ele: “todas as obras de arte deveriam começar pelo fim”. Essa técnica é tão boa que os escritores modernos a utilizam – eis aqui a influência de Poe na modernidade, tanto pela qualidade do seu texto literário que é referência para muitos quanto por seu texto “teórico” que também é influência para diversos compositores.  

Além do mais, é n’A Filosofia da Composição que Poe nos traz algumas curiosidades sobre O Corvo, por exemplo, segundo o próprio, em vez do corvo, ele iria colocar um papagaio para o suspense e para vocalizar a palavra “nevermore” (nunca mais), mas pensou bem e preferiu o corvo, já que este traz o tom de horror que desejava para o texto. Faz sentido, pois o corvo, além de tudo, é símbolo de mau agouro.

Mas é claro que A Filosofia da Composição é ainda mais completa. Por exemplo, aqui Poe explica o porquê que preferiu fazer o corvo entrar na sala de estar do nosso personagem, também explica a sua preferência pelo tom melancólico e mórbido:

Tomando, portanto, a Beleza como minha esfera, minha próxima decisão foi acerca do tom de sua manifestação mais elevada – e, a experiência já demonstrou, este tom é o da tristeza. A beleza, de qualquer tipo, em seu desenvolvimento supremo, leva a alma sensível às lágrimas. A melancolia é, consequentemente, o mais legítimo de todos os tons poéticos. [...] A morte foi a óbvia resposta. “E em qual circunstância esse mais melancólico dos temas torna-se mais poético?” Tendo em vista o que já expliquei com mais detalhes anteriormente, a resposta aqui também se fez óbvia: “Quando aliada à Beleza: a morte de uma bela mulher é, indubitavelmente, o tema mais poético do mundo e, da mesma feita, não resta dúvida de que os lábios mais apropriados para evocar este tema sejam o do enamorado de luto por um amor”.

Traduções  

O Corvo fora traduzido para a língua portuguesa por grandes escritores como Machado de Assis e Fernando Pessoa. Essa edição da Darkside traz exatamente o texto traduzido por estes dois. Para mim, a tradução do Machado é a melhor, o ritmo e vocabulário estão agradáveis. Por outro lado, a tradução do Fernando Pessoa oferece uma narrativa mais simplificada da obra, o que pode ser “melhor” para quem nunca teve contato com O Corvo.

Ademais, outros autores como Emílio de Meneses e Milton Amado traduziram o Corvo. O primeiro, nos traz uma tradução curiosa em dezoito sonetos. O segundo, traduziu o corvo em “linguagem brasileira” no melhor sentido da palavra.

 

Edgar Allan Poe e Augusto dos Anjos

O poeta paraibano, Augusto dos Anjos, lia Edgar Allan Poe. É possível ver algumas influências do Poe em Augusto, sobretudo nos sonetos: Ave Dolorosa (1902) e Asa de Corvo (1906). Ademais, há ainda um soneto do Augusto que me encanta e que me faz lembrar o corvo, é o seu soneto “O Morcego:


Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

E assim são os corvos ou os morcegos: como os pensamentos humano, entram sem pedir licença, muitas vezes nos incomodando por longo período de tempo, às vezes nos causando insônia. Ah!

Conclusão

Parando para pensar, nunca falei tanto sobre um único poema. Mas isso acontecera porque Poe me trouxe esse entusiasmo: O Corvo é de longe meu poema favorito. Lerei mais do Poe nos próximos dias. Adentrarei seus contos e trarei a resenha por aqui. Aguardem!

 

 Edgar Allan Poe, imagem da internet.

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