Banguê, a mais poética obra de José Lins do Rego

Banguê, a mais poética obra de José Lins do Rego

 

 
Nesse blog, José Lins do Rego tem um lugar especial. Já falamos aqui sobre seu Menino de Engenho e de seu Doidinho, dessa vez iremos enaltecer o Banguê, falando assim parece até que pago pau para o autor. E pago mesmo. Zé Lins é com classe o que os primeiros modernos quiseram ser, mas essa treta eu deixo para depois, voltemos ao Banguê:
 
Certa vez vi uma moça no Youtube dizendo que esse é o livro mais poético do Ciclo da Cana de Açúcar. Não, a moça não mentira. Eu tinha que ler para crer, e li e cri. Edgar Allan Poe dizia em sua Filosofia da Composição que a melancolia também alcança a beleza, quando bem escrita. É verdade, e Banguê é a prova disso: esse é um livro triste, mas bonito.
 
Não queria pensar nisto. Chorava. Fui ao quarto dele. A cama de couro, descoberta, a mesa onde guardava as coisas, o cabide com o seu capote dependurado. Tudo que era seu era aquilo, aqueles troços de pobre. E começou a chover, fechando-se o tempo. Parecia que teríamos um dia bom e de repente aquele aguaceiro. Não devia deixar o meu avô ir-se embora sem olhar para ele. Fiz força e olhei-o. A cara era a mesma, a barba branca e o lenço por baixo do queixo. Tinha que lhe beijar como fizeram os outros parentes. Senti a sua mão fria na boca. E o cadáver me gelou o corpo de pavor. Quis gritar, correr dali, mas não podia, como se estivesse fulminado, não encontrando forças para sair. Fechei os olhos e os meus ouvidos zuniam. Tive medo de um ataque. Levaram-me para fora e aos poucos fui recobrando o meu natural.

 Em síntese, Banguê já nos mostra um Carlos de Melo adulto e "responsável". E depois, vemos o personagem enlouquecer de amor pela Maria Alice, mas também de melancolia, já que não dera tão certo esse relacionamento. Além disso, muitas vezes seu ego vai às alturas, mas a própria vida lhe soca a face, Carlos de Melo se auto destrói justamente por conta desse egocentrismo. Por fim, ficou solitário em um engenho caótico. Sente-se ameaçado e essa é a parte mais preocupante:

Nos meus contos de criança o diabo intervinha nessas ocasiões difíceis. Vinha bem-vestido, de dente de ouro na boca, em cavalo arreado, como um príncipe, para saber o que o sujeito queria. Dava tudo, pagava dívidas, salvava de perigos de vida em troca da alma do pobre. Não contava com o diabo entrando ali na minha sala de visitas do Santa Rosa, para me propor a compra da minha alma, mas pensava em soluções tão fantásticas quanto aquela.

Carpeaux dizia que Zé Lins é o último contador de história, ah! Isso ele foi: "o último contador de história". Narrou de tudo e até agora, para mim, sua melhor narrativa é essa, Banguê.


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