Elogio a Rubem Braga - resenha de Ai de Ti, Copacabana

Elogio a Rubem Braga - resenha de Ai de Ti, Copacabana

 

 
Primeira mente, feliz ano novo. Venho aqui discorrer acerca do nosso Rubem Braga, após ter concluído a leitura do volume "Ai de ti, Copacabana" há alguns dias. Este volume, aliás, contém o mesmo título de uma das crônicas do autor: Ai de ti, Copacabana, a qual é belíssima e famosíssima no mundo das crônicas brasileiras. Eis um trecho:


16. Antes de te perder eu agravarei a tua demência – ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

Mas o texto completo é tão bom que se entende todo o apreço por ele. O nosso músico Alceu Valença bebeu dessa fonte, compondo assim sua canção de mesmo nome, isto é, "Ai de ti, Copacabana", citando diretamente o Rubem Braga:

Então mergulho no meu sonho absurdo
Entre carros, conchas, búzios
Entre os peixinhos do mar
Lembro Caymmi, Rubem Braga, João de Barro
E sigo no itinerário da princesinha do mar

 Ademais, Rubem Braga é exemplo de cronista. Lembro-me como se fosse hoje quando comecei a lê-lo em uma tarde escaldante: em poucas páginas espantei-me com a criatividade do autor. Nos dedos de Rubem Braga, tudo, tudo, tudo pode virar assunto de crônica, mas esse "tudo, tudo, tudo" não nos faz suar a testa de tédio: pois não é porque está narrando acerca do simples que o simples sairá de qualquer maneira através de uma narrativa cansativa e medíocre, não. Pelo contrário, é escrevendo o singelo que ele se mostra um grande escritor. Utilizando de uma linguagem fácil (por isso recomendo que os jovens adentrem na literatura através dos seus textos) e narrando essa simplicidade, Rubem Braga extrai o divertido do nosso cotidiano: um cachorro se deitando numa poça de água é motivo de crônica para ele, mas aí, por exemplo, ele nos traz de repente um ensinamento ou um aprendizado, uma satírica, crítica, nos cativando e nos vencendo até o final do texto, através dessa imagem de um cachorro deitado na poça d'água, mas é claro que isso fora somente um exemplo.

Li esse volume sem pressa. Todo dia lia uma ou duas, mas às vezes cinco crônicas. Mas eu lia com um café ao lado, assim associei Rubem Braga com café, até que não consigo mais lê-lo sem beber café.

Uma das minhas crônicas favoritas é O Gavião, onde a gente confere um belíssimo parágrafo:

Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem. A vida é rapina. Perdi os cantos do meu canário e os assovios de meu sofrê; meu coração está mais triste, mas mais leve também.

Rio, julho, 1958.

 

Existem outras crônicas dele que gostei muito, tais como: A Presença, A Moça, A Casa, A Mulher Esperando o Homem... Mas falar sobre esses textos me obrigaria a puxar uma cadeira e convidá-lo a uma conversa em um café. Rubem Braga tem esse poder, porque é um grande cronista, sobretudo, inspiração para mim. 


Rubem Braga, (1913-1990) 

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