No campo

No campo

Ando pelo campo, ouvindo das andorinhas uma canção conturbada sobre o entardecer. Penso nas críticas sobre o meu livro; dizem que nos primeiros existem chatas colocações políticas, o que é verdade. Respiro fundo, e no respirar, altero o pensamento: agora lembro daquele rapaz da Universidade que me odeia, sem me deixar saber o porquê desse ódio. Eia, a vida é luta renhida, como dizia o romântico. No entanto, para que hei de me estressar? Continuo a contemplar o campo, caminhando. Aliás, o meu caminhar é o mesmo caminhar das lesmas; semana passada, disse minha tia acerca disso: bem que (ao caminhar) tu poderias apressar os passos mais um pouco. Mas, minha tia, caso eu apresse o passo, não estarei caminhando.

O campo que contemplo é como aquele condado da obra de Tolkien, e o divino ser nasce em seu centro, todos os dias, todas as manhãs! E é em direção a esse centro que enxergo um senhorzinho barbudo. Penso que ele vem da roça. Caminho em sua direção, encantado com ele, já que aparenta ser um grande sábio da comunidade. Entusiasmado, começo o diálogo: “opa”. Ele responde banhado de nervosismo: “opa”.

“Vem da roça?!”, continuo.

“Não. Da feira”

“O senhor... O senhor é daqui mesmo?”

“Sou; moro naquela casa ali. Rapaz, meu vizinho disse que tem um homem magro, alto... andando por aqui pela noite, parece que é um bandido”, disse-me essas palavras, as quais fizeram-me entender o motivo de seu nervosismo: o velho tinha medo de mim, já que sou magro e alto. Daí, frustrei-me: numa visão prévia, pensava boas coisas dele, mas ele condenava-me bandido. De qualquer forma, continuei:

“Ah... Sim. Eu vim andar por aqui, gosto da natureza, sabe?! Moro ali na Vila”.

“Eu sei... Já me assaltaram aqui...”

À parte isso, acalmei-o, passando confiança. Depois, contou-me de sua vida, disse-me que já viajara por todas essas bandas: Pernambuco, Ceará, Natal e que morou quarenta anos no Rio. Nunca lhe faltou dinheiro, justamente porque sabe trabalhar em muitos serviços, já foi: pintor, carpinteiro, pedreiro, eletricista... Nunca teve preguiça e vergonha para ganhar seu humilde sustento.

Depois de quatro minutos de conversa, dispersou-se dizendo que estava apressado, já que ainda iria fazer o cuscuz. Então eu amei aquele senhor, mesmo ele me julgando previamente, como fazem na Academia. Mas esse senhor pelo menos tinha seus motivos: fora assaltado em um campo que realmente é habitado por más índoles. Na verdade, talvez ele tenha certeza: sou um bandido! Roubei um pouco do seu ar humilde, roubei sua inocência, ao tirar um tanto de seu tempo.  

 



Danilo Soares

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